Hoje, 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, não é um dia de comemoração. A data foi escolhida por ser o dia atribuído à morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares e um dos maiores líderes da resistência do povo negro no Brasil. E como não poderia deixar de ser o dia é de suma importância para endossar a necessidade de nos movimentarmos no sentido de uma sociedade antirracista e anticapitalista.

O povo negro nunca se apassivou frente ao processo de dominação que passou no período da escravidão, o que é muito bem exemplificado pela Revolução Haitiana, processo iniciado em 1791, como reflexo da Revolução Francesa, onde os negros em condição de escravidão na região colonizada pela França na América Central iniciaram um levante popular reinvindicando os mesmos direitos que os jacobinos reinvindicavam na província. Como resultado do primeiro movimento abolicionista, coordenado por dois ex-escravos Toussaint L’Ouverture e Jean-Jacques Dessalines, que bateram de frente com as tropas de Napoleão e venceram, foi conquistada a liberdade da colônia e de seu povo, tornando o Haiti a primeira república governada por pessoas de ascendência africana nas Américas. Esse movimento, junto com as revoltas nacionais como os levantes dos Malês gerou e gera temor nos detentores do capital e são processos de suma importância no entendimento da conquista da abolição da escravatura.

Os países do centro do capitalismo, colonizadores e imperialistas, entenderam e passaram a temer a força que a mobilização popular antirracista, de caráter nacional libertador e anticapitalista tem para derrotar esse sistema que segue exterminando dia a dia o povo negro e trabalhador, e é dessa mobilização que  vêm as nossas conquistas. É importante entendermos também que essas conquistas embora concretas tem um caráter puramente formal: o Brasil foi o último país do mundo à alforriar aqueles que escravizou, e ainda o fez sem nenhum tipo de tentativa de reparação, de forma que até este tempo vemos e sofremos diariamente reflexos da política colonizadora, racista e encarceradora proveniente dessa época.

É estratégico para manutenção da lógica de extermínio e de acúmulo de capital do sistema, que a população siga desmobilizada e precarizada. Para que exista o centro é preciso que exista também a periferia, para que alguém esteja em cima alguém será pisoteado. A violência brutal da polícia contra pessoas negras e periféricas só cresce, e é coadunada por um legislativo parasitário que busca justificar o injustificável em tentativas de garantir excludente de ilicitude para assassinatos cometidos pela polícia sob forte emoção. O desemprego afeta mais os negros, e isso afeta ainda maias mulheres negras, submetendo-as a jornadas triplas ou quádruplas de trabalho no mercado informal. A desigualdade salarial pautada no racismo é indiscutível, considerando que os trabalhadores negros recebem em média 60% do salário de um branco pelo mesmo trabalho exercido. Na crise sanitária pela qual estamos passando hoje, os negros estão mais sujeitos à contaminação pelo SARS-Cov-2, uma vez que ocupam espaços no setor de serviço onde circulam mais pessoas e passam por um processo contínuo de palperização que não lhes dá outra opção senão se manterem nesses postos, sem direito a isolamento ou medidas adequadas de segurança. O encarceramento em massa não é regra para toda a população, os presídios brasileiros estão abarrotados e são preenchidos a partir de uma política de guerra ao povo negro, fazendo com que pretos e pardos ocupem 61,7% das vagas em presídios.

Na universidade esse mesmo sistema se reproduz, com o racismo institucional que rechaça as pautas antirracistas e revolucionárias na academia. Os privilégios sistematizados pelo capitalismo são reforçados dentro dos muros da universidade, e o compromisso por combatê-los radicalmente deve ser central na luta por uma universidade popular.

A política de guerra ao povo negro deixa rastros de sangue por onde passa. Ontem João Alberto, um homem negro, foi assassinado brutalmente a socos na porta de um supermercado da rede Carrefour. Essa morte não se trata de um acontecimento isolado, sendo na verdade fruto de uma lógica que coloca o interesse das pessoas jurídicas na frente da vida de pessoas físicas, a tão falada estrutura dentro do “racismo estrutural”.

Para combater esta estrutura que marginaliza e decide o momento em que uma pessoa negra deve morrer, não há saída que não seja uma retomada da radicalização da luta. O capitalismo não comporta o antirracismo e, como os irmãos haitianos já nos mostraram séculos atrás, não há como combater o racismo dentro de um sistema racista por essência. A saída revolucionária segue sendo nossa única alternativa para o combate real do racismo.

Vidas negras importam!

Lutar, criar, poder popular!

Foto: @cadu_passos_