O que chama mais a atenção, que se mostra mais urgente: vivemos uma pandemia. Pouquíssimas pessoas em todo o mundo viveram uma pandemia, e quando viveram certamente eram muito crianças ao ponto de hoje se lembrarem daquilo. Uma pandemia é uma ameaça global, é algo muito grande e muito preocupante, pois atenta contra nossa vida. É algo semelhante às fantasias infantis de bichos papões que são grandes e fortes, podem nos fazer mal e podem estar por todos os lados. Nos colocamos aterrorizados, com medo e ansiedade. Ninguém é adulto e forte o suficiente pra caminhar nesse escuro.

Em segundo lugar e não menos importante e urgente, é a conjuntura política e social e seus rebatimentos especialmente no modo como poderemos passar pela pandemia. E essa questão coloco em segundo lugar não por ser menos importante e urgente. O fato é que imediatamente o que nos importa mais é a pandemia, pois nos toca em algo mais imediatamente sensível que é a vida (ou a morte), e a vida social tal qual se nos impõe o capitalismo. Rotina, consumo, cultura, trabalho, tudo ao que estamos profundamente moldados. 

Não fosse pela pandemia poucos de nós se importariam sobremaneira com a política e com a sociedade. Mas a pandemia coloca essas questões geralmente ignoradas, em lugar de relevante importância. O que fazer diante dessa ameaça, como corrigir o curso das coisas e voltarmos a ter aquela vida regular e ordinária? Como recolocar a ordem e o progresso nos trilhos? Como poder conseguir o emprego de volta? Vender nossas mercadorias? O que fazer com as crianças sem escola e com a presença ainda mais insidiosa da violência?

E a questão política e social também apresenta revezes pandêmicos. Sofremos desde há alguns anos, em diversos lugares pelo mundo, um recrudescimento avassalador de políticas conservadoras, de governos autoritários, de racismo, de violência do estado, de exploração e opressão capitalistas. A crise do sistema capitalista e o cenário geopolítico apontam para o avanço de medidas imperialistas por parte dos países centrais como os Estados Unidos na luta pela manutenção de sua hegemonia política e econômica. Na américa latina novos golpes ocorrem articulados ou financiados por Washington junto à nossa elite entreguista refém do capitalismo dependente.

Olhando um pouco mais de perto a realidade concreta e a história, não teremos muita dificuldade em notar que essas lideranças conservadoras refletem um tipo de consciência social e política com caráter ideológico profundamente reacionário, politicamente pobre, assentada no pré-conceito de classe, na intolerância. Ideologia burguesa predominante, que conforma um comportamento ordeiro, numa visão de mundo estreita, profundamente limitada por um conjunto de fatores ideológicos, seja no ensino, seja na cultura, na comunicação social, seja por meio de sua relação com o trabalho.

A pandemia potencializa uma crise que já existia e coloca na ordem do dia a luta pela democracia, por direitos sociais e políticos, contra a opressão e discriminação, e pela vida contra o mercado. Uma vez mais e de modo bastante escancarado somos confrontados com a realidade crua do sistema capitalista que em nome do lucro põe em xeque a ciência, a razão, a vida. Como tenho dito, no capitalismo, vida de trabalhador é combustível que se queima. E se observarmos, com alguma exceção, a grande maioria dos que morrem são trabalhadores e trabalhadoras. 

Então o que nos resta? As crianças não vão pra escola, os serviços públicos são fechados à população de modo geral e passam a atender primordialmente incêndios já fora de controle. Já não temos entretenimento, não podemos ir aos botecos, clubes, parques, estádios, fazer festas, churrascos. O transporte já precário e insuficiente é reduzido. É preciso usar máscaras e outros apetrechos. As telas das TVs e smartphones são ainda mais invadidas por notícias sensacionalistas. 

Mas o mais grave é que a massa de trabalhadores e trabalhadoras é assolada por medidas austeras para a contenção da crise econômica decorrente disso tudo. Uns têm que ir ao trabalho normalmente, convivendo com o receio do perigo sempre rondando. Outros se tornam desempregados e precisam recorrer a quaisquer meios de vida se arriscando ainda mais. Direitos e benefícios sociais são retirados, as famílias precisam se virar levando as crianças para o trabalho, ou deixando sob a responsabilidade de terceiros, se colocando em risco.

Não bastasse termos que conviver com tudo isso, é preciso aceitar que estamos à deriva nesse buraco sem fundo. Na verdade, pior que estar à deriva, que significaria não termos uma direção, é estar na direção da barbárie, sofrendo o revés de um governo que faz a gestão do caos, da morte e da opressão, da ignorância.

Não somos acostumados a pensar, definitivamente. Encarar nossa realidade de frente em suas insanáveis contradições, ter que se haver com o estado em que nos colocamos como sociedade é ainda mais desafiador. E é isso que somos chamados a fazer. Mas não estamos fazendo. Na verdade, estamos vivendo um estado cada vez mais polarizado e reacionário, buscado ora a negação total, ora se entregando ao desespero, recorrendo a outras formas de fuga.

O relativo conforto daqueles e daquelas que não perderam seu emprego, sua renda, que puderam não ir mais ao trabalho presencial, de uma parte da classe média que lamenta a angústia do isolamento social, me parece um privilégio diante da realidade dos que estão passando por tudo isso nas fabricas, balcões, carrocerias, feiras e esquinas, alguns passos à frente na direção da morte. 

A morte ronda e está cada vez mais perto, enquanto há circulação praticamente irrestrita de pessoas, e consequentemente do vírus. E temos a sensação de estarmos aguardando muito frágeis ela chegar. Frágeis e distantes dos cheiros, das texturas, dos sons, das gentes. Aos familiares dos que morreram, fica a promessa de um abraço quando tudo isso passar. Notamos que por mais que a tecnologia nos aproxime da realidade, com sua virtualidade e artificialidade, ela não substitui o contato humano e pior, pode nos adoecer em exposições mais prolongadas.

Não podemos negar que os meios tecnológicos proporcionam um contato muito importante com aqueles e aquelas que nos são caros. Mas também está provado que isso também não supre a ausência e apenas torna as coisas menos pesadas. Por mais que queiramos bem aos nossos e por mais que façamos recomendações e alertas, não temos o mínimo controle sobre o que se passa com eles e isso gera um grande desconforto e sensação de frustração, de impotência. É assim mesmo de modo egoísta que reagimos a situações de perigo.

Algo que também não vem por meio das telas de nossos devices tampouco pelas TVs é a noção da contradição social. Isolados em casa, ou seja, ainda de modo mais individualista e presos num círculo vicioso de informações catastróficas e absurdas para as quais nos voltamos compulsivamente, não observamos, não sentimos, não vivemos a realidade dos que não têm a opção de fazer isolamento social, da grande massa de trabalhadores e trabalhadoras que muitas vezes sequer têm acesso a sabão e água potável pra lavar as mãos. E não podem praticar o isolamento social, ter acesso a recursos sanitários, à política de saúde.  

Muitos somos obrigados a uma jornada tripla de trabalho. Na verdade, todas as tarefas e obrigações ocorrem ao mesmo tempo, disputando umas com as outras nossa atenção. Os cuidados domésticos, os filhos que estão sem escola ou creche e pra alguns o trabalho remoto. A falta de jornada, de rotina, da compartimentação própria da divisão social do trabalho à qual estamos totalmente moldados nos coloca confusos, desorganizados, “descuidados” e muito exaustos. A culpa moral que recai sobre todos, especialmente sobre as mulheres é deprimente e muito perturbadora. É preciso dar conta de tudo, mesmo em condições tão adversas. 

Desde há não muito tempo, a burocracia foi nos engolindo dentro de nossas casas, enquanto cuidamos de nós, de nosso lazer, de nossa saúde, de nossa educação, de nossos interesses pessoais. Na internet, principalmente pelos celulares somo convencidos das “facilidades” do mundo conectado, onde podemos resolver tudo sem sair de casa, sem sair do lugar. 

Isso nos parece muito vantajoso e confortável, mas rouba nosso tempo, nos exige conhecimento, nos impõe horas e horas de um trabalho que fora retirado de outros trabalhadores nas empresas e repartições publicas cada vez mais vazias de trabalho humano. O capitalismo se desonera dos gastos com o trabalho de alguns e transfere essa conta para todos e todas, que irão fazer o trabalho gratuitamente em seus celulares e computadores próprios. Enfim, tudo isso é sobrecarga de trabalho e contribui para adoecermos e para mais acumulação de capital.

Em casa sofremos maior exposição a tudo que geralmente deixamos de lado enquanto estamos rendidos integralmente ao trabalho. Em casa e com medo, nosso cotidiano se transforma numa ansiedade sem fim, num loop infinito das mesmas tragédias sociais, familiares e pessoais. Mais violência, mais mortes, mais bizarrices de nossos governos e mais revolta, além do peso da cobrança moral e da frustração fazem com que mais raiva sintamos. O que fazer? É preciso fazer alguma coisa pra deixar de se preocupar, pra sentirmo-nos potentes, pra sermos notados. 

Somos expostos a nós mesmos. Isso me parece muito forte. Tanta coisa é pesada demais pra viver assim de modo tão intenso. É muito pesado termos que estar o tempo todo perto de nós mesmos. Nossa casa tem muitos espelhos, onde estão nossos segredos, nossos amuletos, nossas armas, nossa intimidade, nossa culpa. Assim nos tornamos mais intolerantes, mais sensíveis e nos sentimos sob constante ameaça. Conflitos ocorrem, inevitavelmente. Propensões à depressão, à ansiedade, aos transtornos têm um prato cheio. Já sabemos de alguns e algumas que não conseguiram suportar e perderam mesmo a cabeça. 

Alguns se entusiasmam, amparados em conceitos religiosos e vêm profetizar um mundo mais humano daqui pra frente. Tem gente falando até em uma sociedade mais igualitária. As provas de que isso é muito romântico pra ser verdade são o modo como governos e parte considerável de nossa sociedade reagem caminhando rumo à ignorância, numa seara cada vez mais individualista e insensata. Nem a morte é capaz de fazer recuar a sanha reacionária. Alguns até parecem gostar do que estão vendo.

Tudo isso posto, urge buscar formas de pensar e agir. Podemos ver a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos nas revoltas antirracistas, que a realidade concreta tem determinações próprias e se por um lado uma pandemia não é capaz de frear a sanha capitalista o mercado e o lucro, por outro não se pode conter a revolta popular quando estoura. Lembremos que do conflito entre as classes sociais se faz toda a história até aqui. 

No Brasil grupos anticapitalistas revolucionários e outros agrupamentos progressistas iniciaram há algumas semanas um movimento de oposição aos grupos conservadores, fazendo combate aos governos, especialmente ao de Jair Bolsonaro, que não representam senão os interesses dos grandes capitalistas e com sua irresponsabilidade praticam um genocídio ao se negarem a praticar medidas de contenção da propagação da COVID-19.

Presidente, ministros, governadores, secretários de estado, se mostram alinhados na defesa dos interesses do mercado e contra a vida da classe que trabalha. Além de tudo debocham da crise, da vida, dos problemas sociais, com manifestações públicas de racismo, machismo, de teor fascista inclusive. Brincam com nossas vidas.

Comprimidos em nossos lugares, sentimo-nos aprisionados. Nossa emoção está em frangalhos. Tentamos criar uma nova e suportável rotina, conseguimos por certo tempo, e quando notamos já estamos mergulhados no caos. Tentamos manter contatos virtuais com familiares e amigos, assistimos incontáveis lives na internet, fazemos cursos, assistimos palestras, mas nada disso é capaz de nos iludir novamente. 

A alimentação se tornou uma compulsão. Sem atividades físicas regulares e adequadas, nossa coluna já dá mostras de que nada vai bem com nossa saúde física. Nossas emoções estão bagunçadas. Nosso sono não tem qualidade, mesmo dormindo mais horas por dia. Nossos filhos parecem acreditar que as coisas serão eternamente assim, já não tendo esperança de voltar pra escola. Na verdade, já são nossas crianças que buscam fazer de tudo pra nos consolar. Eles parecem estar mais fortes que nós, que já temos a cabeça cheia de cobranças, de preconceitos, de insegurança. 

Precisamos mesmo é de que suma de vez a sombra da morte. Que alguém na condução do país, dos governos, faça alguma coisa decente. Que surja qualquer substância capaz de prevenir essa doença ou que nos faça esquecer disso tudo. Um remédio, uma vacina, porque não tem havido cachaça que seja suficiente. 

Por óbvio sentimos mesmo falta de mais contato humano, de tudo o que o contato humano sempre proporcionou para que escondêssemos as dores e nos convencêssemos de que tudo ia bem. Festas, entretenimento, ocupações, beijos, abraços. Coletivizações, identificação, reconhecimento. 

Como é possível coletivizar em condições de restrição? Como podemos experimentar sensações mais humanas sem outros humanos por perto? Quanto tempo podemos suportar assim? São desafios que nos temos proposto. É preciso pensar sobre isso, até porque a pandemia coloca desafios a bem longo prazo. E outras pandemias virão, dizem alguns cientistas. E podem não tardar. 

Seria possível criarmos rotinas coletivas entre grupos de pessoas? Grupos unidos por afinidade, laços de trabalho ou aleatoriamente? Poderíamos simular uma vida mais ou menos parecida com a que tínhamos? Não sei com que isso se pareceria, mas parece que na nossa fuga caminhamos desesperadamente pra este lado. Mas, e por outro lado, não seria interessante questionar toda a sociabilidade capitalista? Será que estamos cientes de suas determinações ao ponto de desconfiarmos que são maiores que a própria Pandemia?

De um jeito ou de outro, mesmo antes de que tudo isso ocorresse sempre acreditei que as informações precisam ser filtradas e cuidadosamente administradas em nossas casas e em nossos dispositivos. Muita informação não contribui pra nossa estabilidade e noticias sensacionalistas pior ainda. Podem nos fazer um mal profundo, deprimir. 

Acredito que a qualidade do que “consumimos” de informação pode conformar um pensamento pessimista/ansioso, ou positivo/corajoso. Talvez algo entre as duas coisas. Importante buscarmos meios sérios que se dediquem a pensar a realidade em suas bases materiais, sem romantismo e fatalismo. Entre camaradas e organizações afinadas com a crítica social. Buscar conteúdos que podem nos trazer ideias novas e podem nos colocar à frente da paralisia. Mais que os conteúdos, acredito na analise crítica da realidade, algo um pouco pesado, mas, como já disse, que precisa ser feito. 

De um jeito ou de outro, o que me parece ao final de tudo isso, de toda essa análise, é que somos um tipo de humano cada vez mais distante das características genéricas de ser social e adquirimos cada vez mais comportamentos e pensamentos mecânicos, automatizados, cartesianos, alienados. A vida em sociedade tal qual a concebemos apenas nos dá a ilusão de pertencimento, de domínio de nosso mundo, de nossas ações de nossa vida. Na verdade, somos reféns do trabalho, desse trabalho estranhado, cujos frutos não nos pertencem, não se parecem com aquilo que de fato nos interessa para sobrevier e criar. 

Talvez a pandemia e seu isolamento social sejam um laboratório para nos mostrar um pouco do quanto o modo de produção capitalista nos aliena, nos limita e conforma ideologicamente para servir aos interesses do capital. Pela falta de acesso a outra cultura que não a burguesa, pela falta de condições objetivas para acessar recursos, para nos organizarmos socialmente, para gozarmos de uma consistente formação intelectual, pela violência institucional, segregação social, racismo, machismo, enfim por toda a opressão capitalista, nos faltam condições materiais objetivas para a superação de nosso cotidiano aprisionador e portanto, de construção da consciência crítica classista assentada em bases materiais.

Acredito que tais momentos de caos e conflito podem colocar expostas as vísceras desse sistema social, pondo em xeque o funcionamento deste modo de produção. Neles nos colocamos em contato mais explicito com as contradições sociais, onde a dor da exploração podem ser sentidas coletivamente e deste modo poderíamos nos fortalecer nas lutas sociais rumo às necessárias rupturas. Devo parafrasear Marx novamente: a história é a história da luta de classes. 

Penso que podemos continuar fugindo para a luta moralista e conservadora que busca o restabelecimento da ordem, totalmente limitada pelos marcos burgueses de pensamento, ou podemos adentrar nessa seara espinhosa da crítica e da luta social radical, elevando-nos acima daquele cotidiano, por meio desse novo cotidiano tão radicalmente forte. Compartilhemos então de modo coletivo não as angustias apenas, mas as angústias em forma de crítica, rumo à desidentificação com o predomínio da ideologia burguesa. A isso podemos chamar consciência crítica, consciência de classe, de um singelo caminho rumo à nossa emancipação. 

Renato Mateus. 

Célula de Uberlândia – MG do PCB.