Leonardo Godim para O Poder Popular.

Ex-aluno de Engenharia na União Soviética e dirigente sindical do SINTAPPI-BH, Bonfante une na sua história as velhas gerações de comunistas com as atuais lutas dos trabalhadores por um novo projeto de sociedade. Foto: Ana Vieira.

Com 62 anos de militância nas fileiras do Partido Comunista Brasileiro, Emanuel Bonfante aceita a tarefa de ser pré-candidato a vereador de Belo Horizonte. Emanuel chega a esta eleição com uma larga experiência de vida e luta. Trabalhou como agente de trânsito de Belo Horizonte por muitos anos, se tornou dirigente sindical do SINTAPPI-MG, foi presidente do Centro Cultural Brasil-União Soviética, trabalhou nas principais obras de engenharia do país, foi Diretor de Controle Urbano da Regional Nordeste da Prefeitura de Belo Horizonte e trabalhou na Secretaria Municipal de Atividades Urbanas de Belo Horizonte. Mas a riqueza de seu caráter e firmeza ideológica ultrapassa seu currículo.

Em sua vida, Bonfante conheceu tanto a vastidão do Brasil, seu atraso e deficiências estruturais, quanto a experiência socialista da União Soviética, que levou um país repleto destes mesmos atrasos à condição de potência científica e tecnológica, com pleno emprego, moradia digna, florescimento de universidades e institutos técnicos e amplo acesso à cultura. Estudou na Universidade dos Povos Patrice Lumumba, em Moscou, entre 1962 e 1968, formando-se Engenheiro de Minas e Energia com Mestrado em Gás e Petróleo. Formado, voltou ao Brasil no auge da ditadura militar e, lutando contra a repressão, viu familiares torturados pelo Exército e amigos próximos que nunca voltaram dos porões.

Emanuel mostrou com olhos marejados suas antigas fotos na URSS, afirmando ter vivido ali os melhores anos de sua vida. Entre os amigos e familiares do álbum estão vitimas da ditadura militar brasileira.

Bonfante, como toda velha-guarda comunista, é um símbolo da resistência obstinada de homens e mulheres que lutaram pela democracia no Brasil e foram perseguidos, humilhados, torturados ou até assassinados pelo regime militar. Com seriedade, sem poupar-nos das verdades, falou que só evitou as “entrevistas” dos gorilas pela característica de seu trabalho, que o fazia viajar constantemente. Seus camaradas, entre eles seu irmão mais velho, não tiveram a mesma sorte. Esses crimes da ditadura, alguns nunca relevados, devem permanecer na memória brasileira para que nunca mais se repita, para que nunca mais aconteça.

Seria um equívoco confundir sua experiência de vida com quaisquer conservadorismos. Casado há 36 anos, Emanuel Bonfante é um dos fundadores do Coletivo LGBT Comunista em Belo Horizonte e marcha ao lado dos jovens comunistas que buscam compreender a relação da opressão que sofre a população LGBT com as estruturas do capitalismo e sua ideologia machista e conservadora. Em um período onde sua orientação era ainda pouco aceita, mesmo entre seus camaradas, Bonfante se assumiu homossexual e uniu em sua luta a causa do socialismo e a luta contra o machismo e a LGBTfobia.

Emanuel Bonfante é, por esses e tantos outros motivos, uma peça chave da bancada dos comunistas para as eleições municipais deste ano. Viu com os próprios olhos o surgimento das políticas neoliberais no mundo e a terra arrasada que o Brasil tem se tornado com políticas anti-nacionais, anti-populares e anti-democráticas do neoliberalismo. Por isso, defende irrestritamente uma política popular de garantia do emprego e dos direitos básicos de todo ser humano, como acesso à moradia digna, alimentação, educação de qualidade e saúde pública. Sabe que esta “utopia” não é só possível como é uma necessidade imediata, um direito. É, parafraseando o cantor chileno vítima da ditadura militar de seu pais, Victor Jara, o direito de viver em paz.

Na sua casa, guarda uma coleção de cartazes de filmes antigos sobre a Segunda Guerra Mundial. Emanuel faz questão de lembrar que foram os comunistas que derrotaram o nazi-fascismo, um fato histórico que o pensamento liberal tem procurado todas formas possíveis de apagar da consciência popular.