Gabriela Marreco e Paloma Silva*

“O capitalismo carregou para sobre os ombros da mulher trabalhadora uma carga que a esmaga, a converteu em operária, sem aliviá-lá de seus cuidados de dona de casa e mãe. Portanto, a mulher se esgota como consequência dessa tripla e insuportável carga que com frequência expressa com gritos de dor e lágrimas” Alexandra Kollontai em O Comunismo e Família

O cenário de crise mundial do capitalismo se intensifica no Brasil neoliberal e conservador. Nos últimos anos houve um aprofundamento aos ataques à classe trabalhadora que culminou em um aumento do desemprego. Estamos na casa dos 12 milhões no primeiro trimestre de 2020, de acordo com dados do IBGE¹, a maior taxa dos últimos 10 anos, além do aumento do trabalho informal, no qual os dados demonstram a maior taxa entre as mulheres e a juventude.

O capitalismo possui, desde a sua constituição, a necessidade de se aproveitar da divisão sexual do trabalho no seu processo de acumulação através da expropriação desigual entre trabalhadores homens e mulheres. Nós, mulheres trabalhadoras, ocupamos um lugar no qual nossa força de trabalho serve ao capital para produção de riqueza. Serve, também, para a manutenção e reprodução de nossa própria força de trabalho, bem como de outros trabalhadores, e esse processo ocorre, em grande parte, dentro dos lares, conforme a atual organização da família.

Nós, mulheres, continuamos ganhando menos do que os homens – sendo que as mulheres negras ganham menos que as brancas – realizando múltiplas jornadas, trabalhando fora e ainda cuidando da casa, do marido e dos filhos. Quando estudam e se organizam politicamente, essa jornada é ainda mais ampliada.

Essa discrepância só alarga as diferenças de gêneros existentes, uma vez que as mulheres já têm os salários mais baixos, as mais precárias condições de trabalho, sofrem diversos tipos de violências e são as mantenedoras da esfera privada, da família nuclear, onde realizam trabalho doméstico não pago. Não obstante, dentro do mundo do trabalho, enquanto as mulheres brancas estão ocupando setores como enfermagem e pedagogia, as mulheres negras são maioria em profissões domésticas – atividades realizadas na casa de outra pessoa/família.

Diante deste cenário, a pandemia do Covid 19 escancara que os interesses e lucros dos grandes empresários estão acima das vidas de milhões de trabalhadoras e trabalhadores. Com a aprovação da EC 95, em 2016, e a caminhada na tentativa de privatizar o Sistema Único de Saúde (SUS) – no Brasil é o sistema público que atende a demanda da população com a garra das trabalhadoras e trabalhadores que lutam em defesa do SUS e no atendimento digno a todos – o colapso do sistema público é reflexo da política neoliberal que aponta o caminho inverso das necessidades humanas atuais. O isolamento social, necessário para proteger a todos, modificou e aprofundou ainda mais as múltiplas jornadas das famílias trabalhadoras, em especial as das mulheres que tiveram que se adequar aos cuidados dos filhos, trabalhos domésticos e às relações precárias de trabalho.

Em Minas Gerais, o cenário é caótico. Empresários saíram dentro dos seus carros pedindo o fim do isolamento social e as grandes mineradoras (Vale , Samarco, CSN e Gerdau), e suas contratadas, nem sequer aderiram ao isolamento social, mantendo sua produção normalmente, utilizando de ações de prevenção insuficientes de proteção às trabalhadoras e trabalhadores e embasadas pela portaria nº 135/GM de 28/03/2020 do Ministério das Minas e Energia. É evidente que o governo de Romeu Zema (NOVO), é alinhado ao governo de Bolsonaro-Mourão, ou seja, alinhado ao grande capital e que não se importa, nem um pouco, com a vida da população. O governo de Romeu Zema impõe uma agenda de completo desmonte do Estado, avançando ainda mais na privatização dos serviços públicos e das empresas estatais.

A classe trabalhadora é a mais atingida neste momento e nesse sentido, das várias medidas necessárias para reverter esta situação, destacamos:

  • Por uma ampla unidade de todos os países do mundo, a fim que todos tenham acesso aos insumos, tecnologia e profissionais necessários para enfrentamento da pandemia;
  • Somos contra o bloqueio econômico e político genocida contra a Venezuela e Cuba, que tem impedido medicamentos e alimentos chegarem e dificultam o controle da doença;
  • Chega de pagar dívidas externas e internas e pela a taxação de grandes fortunas. Que esses dividendos sejam investidos no controle da pandemia;
  • Pela manutenção do isolamento social massivo, com manutenção plena de empregos e salários;
  • Pela suspensão de aluguéis e pela garantia de fornecimento de água, luz, energia, internet e gás de forma gratuita a toda a população;
  • A convocação imediata de concursados públicos em lista de espera para todos os serviços essenciais e pela realização de novos concursos públicos;
  • A garantia de todos os equipamentos necessários aos profissionais de saúde, bem como condições digna de trabalho;
  • Contra a MP 927 e a MP 936. Pela revogação das Reformas Trabalhista e da Previdência;
  • Pela revogação da EC 95, pela ampliação dos serviços públicos em saúde, por mais investimentos em ciência e tecnologia;
  • Exigimos que os serviços de atendimento às mulheres em situação de violência sejam considerados essenciais, que canais de denúncia online com maior facilidade de acesso às vítimas sejam criados em todas as localidades, que as medidas protetivas às mulheres sejam ampliadas, e que haja um crescimento no potencial de atendimento em abrigos e lares destinados às mulheres trabalhadoras nessa situação.
  • Aumento do auxílio assistencial condizente ao número de crianças e/ou dependentes nas famílias;
  • Contra o governo Bolsonaro – Mourão e Zema e todos os representantes do capital;

Conclamamos todas as mulheres trabalhadoras a se organizarem nos espaços de lutas nos locais de trabalho, moradia e estudo, fortalecendo cada vez mais a solidariedade de classe, incorporando os Comitês de Solidariedade Feminista, puxadas pelo Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro de sua cidade, permitindo avançar na construção do Poder Popular e do Socialismo.

Referências:

¹ https://www.ibge.gov.br/explica/desemprego.php

*Gabriela Marreco, militante do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro e Partido Comunista Brasileiro (PCB)

*Paloma Silva, militante do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro e Partido Comunista Brasileiro (PCB)