Por Warlen Nunes –  militante do PCB-MG

  No ano de 1867, vem à luz a obra magna de Karl Marx: “O Capital”. Essa não é uma obra de agitação ou propaganda, é uma obra científica que oferece, para as vanguardas dos trabalhadores, as armas da crítica que são um complemento necessário para a crítica feita com as armas.

  Poucas vezes um livro foi gerado em condições tão adversas para seu autor.  Além da miséria material, Marx também fora acometido por uma série de doenças, entre elas terríveis furúnculos, que o levaram certa vez a afirmar: “em qualquer caso, espero que a burguesia se lembre de meus furúnculos até que chegue a hora dela. Maldita seja!”

  Do ponto de vista teórico- metodológico, “O Capital” é como o próprio Marx afirmou, “um todo artístico”, isto é, uma totalidade concreta que reproduz, por meio do pensamento, as tendências objetivas do modo de produção capitalista. Para Marx, os economistas que o antecederam conseguiam no máximo uma representação caótica do todo, pois sempre partiram do todo vivo: da população, do estado, da nação, por exemplo, e por meio da decomposição desta totalidade chegavam ao conjunto de categorias simples como divisão do trabalho, valor, dinheiro etc.  Após este trabalho, os economistas fixavam essas categorias, chegando assim aos modernos sistemas e tratados econômicos.  Dessa forma, o todo apareceria, para estes, como uma junção de partes.    

  O método cientificamente exato de exposição para Marx, pressupõe partir destas categorias simples, pouco determinadas, até as categorias complexas (determinadas), um caminho que vai do abstrato até o concreto, do imediato ao mediato, do simples ao complexo, da aparência à essência. Esse é o modo de reproduzir, pelo pensamento, o todo como uma rica totalidade de relações diversas.

  É em “O Capital” que Marx desvela a anatomia da sociedade burguesa e, por conseguinte revela, de forma científica, que as relações de produção assumem necessariamente a forma de uma relação entre coisas. Ou seja, as relações entre pessoas só podem se expressar através de coisas. Em “O Capital” acompanhamos a trama fantasmagórica da Mercadoria, do Dinheiro e do Capital. 

  Marx chamou de fetichistas as características que os produtos do trabalho assumem nas relações de produção capitalista, pois estes são ao mesmo tempo objetos sensíveis e suprassensíveis, concretos e abstratos.  Nos dizeres de Marx, a mercadoria é algo cheio de sutilezas metafísicas e manhas teológicas. Esse caráter fetichista dos produtos do trabalho, que faz com que as relações de produção entre as pessoas tenham que necessariamente se expressar em coisas, põe o mundo de ponta cabeça, pois aquilo que é essencial ao homem só se realiza pela mediação do mercado.

  Dessa maneira, no modo de produção capitalista dominado pela forma- mercadoria, a realidade está duplicada entre a mercadoria com sua forma natural (valor de uso) que serve para satisfazer as necessidades humanas, e a realidade abstrata e suprassensível do valor (ANTUNES, 2018). O valor de uso é o conteúdo essencial da riqueza para os homens, embora nesta sociedade ele só possa se realizar mediante o consumo e nesta sociedade este tem que passar necessariamente pela troca.  Toda mercadoria é um não valor de uso para seu proprietário e a troca pressupõe justamente a negação dos aspectos concretos, úteis, da mercadoria, em favor de sua determinação abstrata, suprassensível do valor, valor esse que só adquire expressão através do valor de troca e, ao se expressar no valor de troca, esse último aparece como sendo o próprio valor. Esse quiproquó fica ainda mais místico com a conversão da mercadoria em dinheiro. 

  O dinheiro tem sua gênese como equivalente particular nas relações de troca, para logo depois se tornar a forma de manifestação geral do ser abstrato, genérico e suprassensível, que só pode se manifestar nas trocas de mercadorias.  Essa substância abstrata é o valor cristalizado no corpo das mercadorias que se manifesta no corpo da mercadoria- dinheiro.

  Ademais, o dinheiro é a negação da riqueza real, sensível, concreta (valores de uso) em prol da realidade suprassensível e abstrata do valor (ANTUNES, 2018). O dinheiro é a negação do trabalho concreto, em favor do trabalho abstrato, o dinheiro é a negação do trabalho útil, em favor do trabalho genérico (ANTUNES, 2018). O dinheiro é o sensível-suprassensível da riqueza e mesmo que imprestável do ponto de vista da satisfação das necessidades humanas, ele é objeto de culto e adoração, ele é o verdadeiro Cristo encarnado. 

  Desse modo, o dinheiro aparece como o regente deste processo, como o Deus do mundo das trocas, mesmo sendo por ele determinado. Nos Grundrisse, Marx nos dá uma dimensão dessa mercadoria celeste: “de sua figura de servo, na qual se manifesta como simples meio de circulação, converte-se repentinamente em senhor e deus, no mundo das mercadorias. Representa a existência celeste das mercadorias, enquanto as mercadorias representam sua existência mundana” (MARX, 2011, p.165).

Entretanto, na sociedade capitalista, o dinheiro não tem só as funções de equivalente geral das trocas. O dinheiro também tem que circular ou se converter em capital, expresso por Marx na fórmula D-M-D. E desse modo:

As formas independentes, as formas-dinheiro, que o valor das mercadorias assume na circulação simples, servem apenas de mediação para a troca de mercadorias e desaparecem no resultado do movimento. Na circulação D-M-D, ao contrário, mercadoria e dinheiro funcionam apenas como modos diversos de existência do próprio valor: o dinheiro como seu modo de existência universal e a mercadoria como seu modo de existência particular, por assim dizer, disfarçado. O valor passa constantemente de uma forma a outra, sem se perder nesse movimento e, com isso, transforma-se no sujeito automático do processo (MARX, 2013, p. 229-230).

  Como reafirma Marx: “o valor se torna aqui o sujeito automático do processo” (MARX, 2013, p. 229-230). Mesmo que o capitalista possuidor de dinheiro seja o dono do processo de produção, não é ele que o controla, pois, o capital, na medida em que é valor que se auto valoriza, é que determina todo o processo.  Ele é o Espírito Absoluto do processo de valorização. Assim, fica nítido o caráter fetichista do capital:

[…] aqui ele se apresenta, de repente, como uma substância em processo, que move a si mesma e para a qual mercadorias e dinheiro não são mais do que meras formas. E mais ainda: em vez de representar relações de mercadorias, ele agora entra, por assim dizer, numa relação privada consigo mesmo. Como valor original, ele se diferencia de si mesmo como mais-valor, […]. O valor se torna, assim, valor em processo, dinheiro em processo e, como tal, capital. (MARX, 2013, p. 230-231). 

  Desse modo, o movimento do capital se autonomiza da vontade dos indivíduos. Esse movimento pode ser resumido nos seguintes momentos da totalidade produtiva, reprodutiva e expansionista do capital: o possuidor de dinheiro (D) vai ao mercado e compra dois tipos de mercadorias, força de trabalho (FT) e meios de produção (MP),  as põem em ação no processo produtivo, (P), que produz uma nova mercadoria acrescida de mais-valor (M’) que ao ser vendida se transforma novamente em dinheiro acrescido de mais-valor, (D’) – o ciclo do capital em sua totalidade é: D-M- (FT-MP) P-M’-D’. Embora, o lucro apareça como uma mágica operada pelo capital, este só foi possível pela brutal exploração da força de trabalho, única mercadoria capaz de produzir um valor maior do que o que ela própria vale.

  Portanto, o livro “O Capital” de Marx nos permite desvelar as formas fetichistas da mercadoria, do dinheiro e do capital. 

  O capital nasceu jorrando sangue e fezes de seus poros. Entre os pressupostos históricos que permitiram a gênese desta insana forma social, temos: a expropriação violenta dos produtores diretos, separando estes dos seus meios de produção, tornando-os homens livres para serem esfolados pelo capital. Essa trama fantasmagórica só foi possível porque foi erguida sobre a violência sistemática e, hoje ela só se reproduz sugando vampirescamente as energias e as potencialidades dos trabalhadores. Mas, chegará o dia em que os expropriados expropriarão seus expropriadores. 

Referências 

ANTUNES, Jadir. Marx e o Fetichismo da Mercadoria Dinheiro. Revista Dialectus. Ano 5. n.12, Jan-jul. 2018.

MARX, Karl. Grundrisse. Tradução: Mário Duayer; Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2011.

______________. “O Capital”: crítica da Economia Política. Livro 1: O processo de produção do capital. Tradução: Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.