Arquivos Eldorado dos Carajás - PCB/MG https://www.poderpopularmg.org/tag/eldorado-dos-carajas/ Poder Popular Minas Gerais Fri, 17 Apr 2020 14:09:07 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 Escrevendo a História com a própria vida: 24 anos do massacre de Eldorado dos Carajás https://www.poderpopularmg.org/escrevendo-a-historia-com-a-propria-vida-24-anos-do-massacre-de-eldorado-dos-carajas/ https://www.poderpopularmg.org/escrevendo-a-historia-com-a-propria-vida-24-anos-do-massacre-de-eldorado-dos-carajas/#respond Fri, 17 Apr 2020 14:09:07 +0000 https://www.poderpopularmg.org/?p=74400 YAN VICTOR

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Por Yan Victor, militante do PCB

Há exatamente 24 anos, Eldorado dos Carajás foi cenário de um dos capítulos mais selvagens da história da luta pela reforma agrária no Brasil. Enquanto o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) fazia um brinde de saquê na inauguração da segunda unidade da Cenibra, na mineira Belo Oriente, um grupo de 156 policiais militares das unidades de Marabá e Parauapebas em um ato de extermínio dispararam suas armas contra crianças, mulheres e homens membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Um crime contra a vida dos trabalhadores Sem Terra! Os policiais, além de tirarem as tarjas de identificação das fardas, executaram, oficialmente 19 Sem Terra e feriram 69 dos manifestantes que interrompiam o tráfego na rodovia PA-150, no Km 96, município de Eldorado dos Carajás. O grupo de aproximadamente1.200 trabalhadores rurais Sem Terra protestavam contra a medida de desapropriação da Fazenda Macaxeira – um complexo de 42 mil hectares.

As cicatrizes do massacre permanecem expostas nas famílias dos executados, nos corpos dos feridos e nos traumas dos sobreviventes. E seguiram marcadas na memória dos campesinatos do brasil. Ainda hoje o extermínio dos trabalhadores do campo, em suas muitas particularidades – quilombolas, camponeses, indígenas – segue sendo a toada do modo de produção do capital. Em 2017, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra, 71 trabalhadores foram assassinados em conflitos no campo. Número de maior registro desde 2003.

A violência no campo está diretamente ligada com um modo de produção econômico e político que concentra a propriedade, acumula riquezas em escala mundial e aprofunda desigualdades, sendo a expropriação e violência contra os trabalhadores do campo um exemplo de concretude. Dessa forma, cremos que a única saída para a guerra declarada contra às classes trabalhadoras – trabalhadores do campo e da cidade – passa inexoravelmente pela superação do capital e pela construção do Poder Popular.

Em memória dos trabalhadores(as) Sem Terra exterminados em Carajás e também em memória de todos trabalhadores(as) que constroem a história com suas próprias vidas. Terminamos esse texto com seus nomes, pois sabemos que suas lutas e vidas fecundam nossa caminhada! 

Revejo nessa hora tudo que ocorreu, 

Memória não morrerá

Longe, ouço essa voz 

Que o tempo não vai levar”!

Fernando Brant / Milton Nascimento

Altamiro Ricardo da Silva

42 anos, casado, goiano, lavrador

Graciano Olímpio de Souza

47 anos, casado, maranhense, lavrador

Oziel Alves Pereira

19 anos, solteiro, goiano, agricultor

Amâncio Rodrigues dos Santos

47 anos, solteiro, maranhense, agricultor

Raimundo Lopes Pereira

20 anos, solteiro, maranhense, borracheiro

Valdemir Pereira da Silva

23 anos, solteiro, goiano, agricultor

Antônio Alves da Cruz

59 anos, casado, piauiense, agricultor

Abílio Alves Rabelo

57 anos, casado, maranhense, agricultor

João Carneiro da Silva

38 anos, maranhense, garimpeiro

João Rodrigues Araújo

48 anos, casado, piauiense, agricultor

Robson Vitor Sobrinho

25 anos, casado, pernambucano, agricultor

Leonardo Batista de Almeida

46 anos, casado, maranhense, agricultor

José Ribamar Alves de Souza

22 anos, solteiro, maranhense, agricultor

Lourival da Costa Santana

25 anos, casado, maranhense, agricultor

Manoel Gomes de Souza

49 anos, casado, piauiense, agricultor

José Alves da Silva

65 anos, viúvo, goiano, agricultor

FONTES CONSULTADAS:

Artigo de jornal 1. TAKAHASHI, Luciene; MAGALHÃES, Beto. UM ANO DEPOIS, NADA MUDOU. Especial Hoje em Dia, 13 de abril de 1997, p. 1-8.

Artigo de Digital 1. Atlas da Questão Agrária Brasileira. Disponível em: http://www2.fct.unesp.br/nera/atlas/violencia.htm. [Acesso em: abril, 2020].

Artigo de Digital 2. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Disponível em: https://mst.org.br/nossa-historia/96-2/. [Acesso em: abril, 2020].

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ABRIL EM MEMÓRIA: A LUTA DO CAMPO https://www.poderpopularmg.org/abril-em-memoria-a-luta-do-campo/ https://www.poderpopularmg.org/abril-em-memoria-a-luta-do-campo/#respond Wed, 03 Apr 2019 13:14:44 +0000 https://www.poderpopularmg.org/?p=74214 DANIELLA NÉSPOLI

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Daniella S. S. Néspoli*

A memória enquanto um exercício de reconhecimento do passado e de aproximação com a realidade presente, nos possibilita a desmistificação de tentativas ideológicas de negação dos fatos históricos. Vivemos em um tempo de manipulação das verdades, nesse sentido recuperar a memória é um ato de resistência ao apagamento histórico dos processos de luta que estruturam a formação da nossa sociedade brasileira. Nessa perspectiva, coloca-se aqui a importância de recuperar a memória de luta e resistência dos povos do campo no Brasil, em um mês marcado pela violência cometida pelo Estado no “Massacre de Eldorado dos Carajás”, em que ocorreu, no dia 17 de abril de 1996, o assassinato de dezenove sem-terra no município de Eldorado do Carajás, no sul do Pará.

Segundo dados e informações sobre conflitos no campo, registrados pela Comissão Pastoral da Terra, o índice de assassinatos acometidos contra povos do campo (Sem – terra, assentados, índios, quilombolas, pescadores e lideranças) em comparação aos números registrados de 2004 a 2014, praticamente duplicou no ano de 2015, 2016 e 2017, ou seja, a violência e o massacre contra os povos do campo nesses últimos anos aumentou em 100%.

Mediante a uma conjuntura de retrocessos no campo das políticas sociais, no desmonte dos direitos humanos e na ostentação da intolerância e do autoritarismo, se faz preciso uma leitura de realidade que evidencie como o discurso de ordem dos interesses da sociedade burguesa tem definido e fomentado este quadro de violência. Não podemos esquecer que durante a instauração do regime militar em 1964 este quadro se intensificou, as principais lideranças foram presas, jogadas à clandestinidade e assassinadas, ocasionando uma desarticulação das lutas em curso mas não o seu desaparecimento, que ao contrário, em resposta a opressão tomaram forças como resistências isoladas, reorganizando em ritmos diferenciados de forma que no final da década de 1970 os trabalhadores do campo surgem como atores principais da redemocratização do país.

O Partido Comunista Brasileiro (PCB) desde 1922 busca uma proposta de aliança entre operários e camponeses. As memórias de militantes como Gregório Bezerra, José Pureza, Bráulio Rodrigues da Silva, Irineu Luis de Moraes e Lyndolpho Silva marcam esses momentos iniciais desta articulação e também do esforço e dificuldades encontradas na elaboração de uma linguagem comum entre as linhas de ação do partido em diálogo com as demandas cotidianas dos trabalhadores do campo. Foi na capital mineira que ocorreu o Congresso Camponês de Belo Horizonte de 1961, a reivindicação do acesso à terra tornara-se um tema público que não podia mais ser ignorado. Logo em 1962 foi regulamentado o direito de sindicalização dos trabalhadores do campo e aprovado o Estatuto do Trabalhador Rural.

Os massacres e crimes cometidos contra as organizações de luta do campo marcam historicamente, durante séculos, as relações políticas, sociais e econômicas da sociedade brasileira, sendo ainda cotidianamente presentes em pleno século XXI. Desde Palmares, Canudos, Contestado e Ambrósio, a resistência campesina se coloca como uma memória importante para a construção da consciência histórica da população do campo enquanto classe trabalhadora. A luta pela terra expressa a potencialidade da organização coletiva em prol de uma sociedade mais justa e igualitária, a partir de um sistema econômico de redistribuição da riqueza e dos meios de produção. São organizações que se afirmaram sujeitos políticos, sociais, culturais e éticos de pensamentos saberes, memórias e identidades construídos a partir da resistência aos padrões de poder, dominação e subalternização, sendo então, os movimentos de luta pela terra um dos principais alvo de governos autoritários que buscam criminalizar, exterminar, organizações potentes de resistência a dominação e opressão do capital.

O projeto de reforma agrária popular tem apontado caminhos importantes para a consolidação de um novo modelo de organização da sociedade brasileira, em que a distribuição da riqueza, o respeito a diversidade entre povos e culturas e também ao meio ambiente tem evidenciado a funcionalidade de uma nova estruturação das relações produtivas, em oposição radical ao modelo vigente de crescimento e acúmulo de riquezas do capital. Em um contexto de crise do sistema mundial capitalista, este projeto luta se coloca como uma possibilidade de enfrentamento estrutural no colapso das sociedades modernas, no acirramento das lutas de classe e na proposição de novos horizontes para o socialismo.

*Daniella S.S Néspoli é assistente social da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), artista e pesquisadora da temática “Luta e resistência quilombola”.

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