Arquivos Comunismo - PCB/MG https://www.poderpopularmg.org/tag/comunismo/ Poder Popular Minas Gerais Tue, 25 May 2021 18:45:20 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 Publicada 2ª edição do livro “NERES! DA LUTA CONTRA A DITADURA À RECONSTRUÇÃO DO PCB” https://www.poderpopularmg.org/livro-neres-segunda-edicao/ https://www.poderpopularmg.org/livro-neres-segunda-edicao/#respond Tue, 25 May 2021 12:40:15 +0000 https://www.poderpopularmg.org/?p=75422 PABLO LIMA

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Acaba de ser publicada a segunda edição do livro Neres: da luta contra a ditadura à reconstrução do PCB, organizado pela historiadora Paloma Silva e pelo historiador Pablo Lima, pesquisadores do Instituto Caio Prado Jr. em Minas Gerais, em parceria com a editora Raízes da América, de São Paulo.

O livro é resultado de dez anos de pesquisas sobre a história de vida do comunista José Francisco Neres, 86 anos, militante da célula da Velha Guarda do Partido Comunista Brasileiro (PCB) em Belo Horizonte. Filho da classe trabalhadora e da população negra, em sua juventude e início da vida adulta Neres foi jogador de futebol, tecelão, liderança sindical. Filiou-se ao PCB em 1961 e foi eleito vereador em Sabará em 1962, onde exerceu seu mandato em defesa dos interesses da classe trabalhadora.

Aí veio o Golpe Militar de 1964. Neres teve seu mandato cassado, perdeu o emprego e foi preso por 11 dias. Continuou a militância no contexto tenebroso da Ditadura Militar, Terrorista e Assassina (1964-1989) que se abateu sobre o país. Em 1976, no auge da repressão, Neres foi sequestrado e preso novamente, desta vez por 2 anos, 10 meses e 8 dias, sendo submetido a diversos tipos de tortura. Foi alvo da Operação Bandeirantes, um mecanismo de repressão ilegal, porém institucionalizado, dentro do Estado brasileiro. Na prisão, Neres e outros militantes também organizaram a resistência, realizando greves de fome e conseguindo passar as condições desumanas às quais estavam submetidos aos veículos de comunicação mais progressistas. Em 1979, Neres foi o último preso político libertado em Minas Gerais no contexto da Anistia.

Na década de 1980, Neres retomou a militância, organizando o jornal União Sindical e reconstruindo o PCB. Após a crise no sistema socialista soviético (1989-1991) e o racha no Partidão (1992), Neres manteve-se firme no PCB, que conquistou seu registro eleitoral definitivo em 1996. Desde este período, Neres tem uma intensa militância no movimento de ex-perseguidos e anistiados políticos do movimento sindical em Minas Gerais.

A primeira edição do livro saiu em novembro de 2019, com apenas 100 exemplares. Todos foram vendidos e muito bem recebidos pelo público. Em 2020, José Francisco Neres financiou, com seus próprios recursos, uma segunda edição de 400 exemplares, revista e ampliada, que acaba de ser publicada em abril de 2021. O livro conta com dois capítulos autobiográficos escritos por Neres, um prefácio de Ivan Pinheiro, e outros capítulos de Fábio Bezerra, Fernando Gautereto Lamas, Igor Dias Domingues de Souza, Milene Lopes Costa, Pablo Lima, Paloma Silva e Túlio César Dias Lopes, cobrindo a história de Neres como jogador de futebol, sindicalista e militante comunista nas últimas seis décadas de história do Brasil. A diagramação é assinada pelo artista gráfico e designer Julião Villas, com revisão de língua portuguesa pela professora Andrea Lima. A produção editorial foi feita por Gabriel Landi, em São Paulo. O PCB agradece a todas e todos que construíram esta obra e convida o público a conhecer a história do movimento sindical e comunista em Minas Gerais por meio da trajetória e militância política de José Francisco Neres.

O livro está à venda por R$ 36,00. Interessados devem enviar mensagem de whatsapp ou sms para (31)99298-2916 para combinar a forma de pagamento e informar o endereço para postagem ou outra forma de entrega.

Leia alguns trechos da obra:

Neres foi de quase tudo um pouco: jogador de futebol, operário, parlamentar, músico, eletricista, jornalista de fato. Mas, antes de tudo, sempre um comunista. Habilidoso, gentil e carismático nas relações pessoais, o camarada atuava entre o proletariado e no ambiente sindical como um peixe dentro d’água. Preso político durante três anos, foi o último mineiro a sair dos cárceres da ditadura, em março de 1979, reintegrando-se imediatamente à militância. (Ivan Pinheiro)

As trajetórias da militância são fundamentais não apenas para se conhecer o movimento da atuação concreta na realidade, mas também para se construir as mudanças do estado de coisas na sociedade brasileira. Nesse sentido, o exemplo de vida e militância de José Francisco Neres leva à reflexão sobre os percalços e avanços das lutas sindicais e populares em Minas Gerais e no Brasil. (Pablo Lima e Paloma Silva)

No capítulo Porque sou Comunista, José Francisco Neres registra sua trajetória de vida pessoal e os movimentos que o levaram à consciência de sua condição de filho da classe trabalhadora, como jogador de futebol, militante sindical e sua entrada para o PCB em agosto de 1961. (…) Em O Golpe de 1964 e Luta Contra a Ditadura Militar, o próprio Neres relata o cotidiano de perseguição e repressão (…). Em Fatos e situações: a perseguição do SNI contra Neres durante a Ditadura Militar, Terrorista e Assassina (1964-1989), Pablo Lima analisa a Certidão 6280 fornecida pela Agência Brasileira de Inteligência a Neres em 2003, que contém os registros sobre ele nos arquivos deste órgão fundado na Ditadura como Serviço Nacional de Informações (SNI). Uma leitura crítica do documento permite constatar a permanência do aparato de repressão, monitoramento e perseguição de comunistas após a Anistia, em 1979, durante a década de 80 e mesmo após a Constituição de 1988, evidência da continuidade das estruturas fascistas e ditatoriais no Estado brasileiro. (…) Em Memórias de um sindicalista, Milene Lopes Costa narra a trajetória político-ideológica de José Francisco Neres, sindicalista e preso político durante a ditadura militar-civil brasileira. (…) Em A relação entre futebol e sindicalismo em Minas Gerais nas décadas de 1950 e 1960, Fernando Gaudereto Lamas foca especificamente o início da trajetória sindical de Neres. Analisa a íntima relação que havia entre lazer e sindicalismo, abordando nomeadamente a relação entre a prática do futebol e o sindicalismo (…). Em Neres e o VI Congresso do PCB: organizar as massas contra a ditadura pela base, Igor Dias Domingues de Souza, examina a atuação do PCB nas Organizações de Base durante os anos de 1964 a 1968 (…). Em Neres e os valores e convicções da moral comunista, Fábio Bezerra narra episódios vividos com José Francisco Neres que marcaram sua militância e também são significativos para o PCB nesses últimos anos. O último capítulo, de Túlio Lopes, intitulado Neres: persistente e sempre presente na luta!, é dedicado à militância de Neres durante as últimas décadas no campo dos direitos humanos e da luta pela verdade e justiça em relação aos crimes cometidos pela Ditadura Militar e pelo Estado brasileiro contra cidadãos, por motivos políticos. (Pablo Lima e Paloma Silva)

 

 

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Vote comunista! Veja o mapa de candidaturas do PCB em Minas Gerais https://www.poderpopularmg.org/vote-comunista-mapa-candidaturas-pcb-mg/ https://www.poderpopularmg.org/vote-comunista-mapa-candidaturas-pcb-mg/#respond Mon, 19 Oct 2020 14:27:17 +0000 https://www.poderpopularmg.org/?p=75192 LEONARDO GODIM

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O Partido Comunista Brasileiro afirma mais uma vez seu compromisso com a classe trabalhadora e apresenta candidaturas comunistas nas principais cidades onde está inserido em Minas Gerais. Túlio Lopes, secretário político do PCB em Minas e membro do Comitê Central, afirma que

“nesse momento, as candidaturas comunistas irão expressar com seus símbolos, com suas propostas e com o direcionamento de construir o Poder Popular, uma alternativa para o povo trabalhador em suas respectivas cidades”.

O destaque é Ipatinga, onde foram lançadas 14 candidaturas para vereador, além de uma chapa própria para prefeitura. A expectativa de eleger uma bancada comunista para o parlamento da cidade é forte, com nomes de peso como Daniel Cristiano (21.210), Duda das Cadeiras (21.244) e Bruna Thariny (21.211). À frente da disputa para prefeito estão os camaradas Diego Arthur e Bruno Anastácio (21). Veja no mapa de candidaturas todos os 14 os candidatos e candidatas.

São 10 candidaturas para a Câmara Municipal em Belo Horizonte, onde os comunistas fortalecem a Frente de Esquerda na eleição majoritária, encabeçada por Áurea Carolina (PSOL) e Léo Péricles (UP). A velha guarda do partido está representada por Emanuel Bonfante (21.210), Almeidão do Partidão (21.922) e Souza Dantas (21.800). A juventude também aparece com força nas candidaturas de Diego Miranda (21.000), Thiago Camargos (21.420) e Mariana Versiani (21.902), Gabriela Marreco (21.180), Thomás Carrieri (21.888) e Pedro Gabriel (21.614). Wellington Lemos (21.123) também compõe a chapa.

Em Betim, importante cidade operária, Amaury Alonso (21.123) sai como candidato a vereador e Zulu (PCB – 21) é candidato a prefeito, com Dogival (PCB) como vice.

Em Uberaba, o partido fortalece a candidatura de Maria Sandra (PSOL) e Maíra Rosa (PSOL), representando a Frente de Esquerda Socialista, e lança Beto Brandi (21.000) e Brenda Rodrigues (21.021) na disputa para uma cadeira no parlamento municipal.

Em Juíz de Fora, o camarada Patrick Carvalho (21.210) assume a tarefa de candidato a vereador, enquanto Kaizim (PCB) assume como candidato a vice-prefeito em chapa com o PSOL, encabeçada por Lorene Figueiredo (50).

Já em Sabará, o Professor Luís Fernando (21.000) participa da disputa por uma cadeira na Câmara dos Vereadores. Sua candidatura dá grande ênfase na defesa da educação pública, de qualidade e popular.

Em Governador Valadares, o PCB está junto com Xabier (PSOL – 50) na disputa para prefeitura, fortalecendo o Bloco da Esquerda Socialista.

“O PCB vem se organizando nos últimos anos nas principais cidades-polo de Minas Gerais, e como reflexo dessa construção partidária e desse trabalhado base, apresentamos candidaturas em duas cidades operárias, com Diego Arthur (21) em Ipatinga e Zulu (21) em Betim. Nas outras cidades, estamos construindo, em unidade com as forças de esquerda, como o PSOL e a UP, alternativas populares, o que se concretizou em Belo Horizonte, Juiz de Fora, Governador Valadares e Uberaba. Em outras cidades, o PCB irá indicar o apoio à candidaturas da esquerda vinculadas aos movimentos sociais e populares”,

afirma Túlio Lopes.

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Um pré-candidato operário para prefeitura de Betim https://www.poderpopularmg.org/candidato-operario-negro-prefeitura-betim/ https://www.poderpopularmg.org/candidato-operario-negro-prefeitura-betim/#respond Wed, 02 Sep 2020 13:42:31 +0000 https://www.poderpopularmg.org/?p=74821 LEONARDO GODIM

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Aos 70 anos, Jose Augusto Bernardes é pré-candidato a prefeito de Betim pelo PCB. Foto: Ana Vieira.

Por Leonardo Godim para O Poder Popular MG.

O frio que se abateu sobre a cidade desde o final de semana ia dando trégua numa tarde de sol forte. Eu ainda estava digerindo a forte impressão que tive das plantas da Fiat e da Refinaria Gabriel Passos, da Petrobras, na estrada de Betim, quando chegamos no nosso destino e fomos recebidos por José Augusto Bernardes, o camarada Zulu. Sua figura simples em poucas horas de conversa se converteu em uma impressão ainda mais forte do que aquela da estrada. Sua história era um testemunho daquela terra e notei que sua grandiosidade ultrapassava qualquer refinaria, qualquer fábrica. Pois ele era testemunho da classe que tornou aquelas grandes construções possíveis.

José foi operário durante quase toda sua vida. Fundou o Sindicato dos Metalúrgicos de Betim em 1979, em plena ditadura militar, e viu a fase ascendente das lutas populares no Brasil. Fundou e dirigiu associações de moradores em Betim por muitos anos, como a da região do PTB. Foi também militante ativo do movimento negro da região e contava contente de sua trajetória de luta contra o racismo. “Onde erramos? É essa a pergunta que me pego tantas vezes tentando responder…”, nos confidenciou. Às vezes, a vida de alguns indivíduos pode ser uma síntese de um capítulo da história de toda uma classe. Era o caso de Zulu, em cuja perplexidade se resumiam embates e desafios que, pude compreender, minha geração terá de elaborar melhores respostas do que aquelas que guiaram as gerações anteriores.

Zulu na fachada do espaço cultural fundado por ele no bairro Niterói, Betim. Foto: Ana Vieira.

Nosso ponto de encontro foi um espaço cultural fundado e mantido por Zulu no bairro Niterói. Instrumentos musicais pintados na parede davam um ar carnavalesco para aquele espaço cultural em um bairro simples da industrial Betim. Além de sediar eventos, o espaço era uma escola de música, com direito a um piano, órgão, percussões, violão e cavaquinho – ao que pude ver em minha curta visita. Curioso com o evidente amor pela música presente naquele espaço, descobri outra face do operário Zulu.

Zulu é músico. Músico profissional, contou sobre o que era ser compositor na época da ditadura e mostrou seus arquivos, com letras e cifras carimbadas pelo Departamento de Censura de Diversões Públicas. Buscou uma música sua que fora censurada,  mas não a achou em meio a seu vasto arquivo. Contou que chegou perto de abandonar a vida de operário para dedicar-se à música, mas viu que muitos grandes músicos de nossa história não receberam durante a vida o reconhecimento necessário para garantir as contas da casa. Imaginou que se acontecia com seus ídolos, com ele não seria diferente. E assim o Zulu músico continou operário, e lutando. Mas o amor pela música nunca minguou.

Zulu ainda possui os registros de músicas carimbadas pela censura, a capa de um disco de vinil seu e cartazes de apresentações. Foto: Ana Vieira.

Suas histórias quase sempre terminavam com a mesma nota de rodapé. “Você vê como o povo trabalhador desse país sofre?” Este fato estava marcado na sua existência. Mas seu reconhecimento disso não parecia o fazer temer. Pelo contrário. O fazia defender – e repetiu isso muitas vezes no nosso curto tempo lá – que os comunistas tinham o dever de lutar com o povo trabalhador. Afirmava com autoridade que era entre os mais oprimidos da sociedade que nasceria o novo. Estava convencido que aqueles homens e mulheres simples com quem compartilha o sofrimento da barbárie capitalista não tinham nada a perder além de suas correntes.

Aos 70 anos, José Augusto Bernardes, Zulu, é pré-candidato a prefeito da cidade de Betim. Disse energeticamente, enquanto tirávamos as fotos para a pré-campanha, que os comunistas tinham o dever de não abaixar a cabeça. Enquanto a fotógrafa pedia que ele sorrisse e deixasse de conversar, Zulu declarava seu comprometimento com os trabalhadores nessa eleição. Falou sobre as compras de voto, tão comuns em Betim, e disse que nosso trabalho era mostrar aos trabalhadores que existia uma alternativa ao jogo sujo da política brasileira. Entre seus causos e piadas, ele demonstrava uma seriedade tremenda. Pois sabe quais são os interesses dos trabalhadores, e sabe quão poderosos são seus inimigos. Maldizia os que traem os trabalhadores como quem, provavelmente, já viu isso se repetir inúmeras vezes. E do alto de sua sabedoria, anunciava: venceremos!

Em uma das paredes do espaço cultura, uma bandeira da África foi pintada, com as várias nacionalides africanas e a divisão do continente pelos países imperialistas. Para Zulu, a memória é uma grande arma dos oprimidos, e faz questão de estimular isso em seu trabalho de base. Foto: Ana Vieira.

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Tirem a gente desta!! Considerações sobre a manipulação do anti-comunismo no Brasil https://www.poderpopularmg.org/tirem-a-gente-desta-consideracoes-sobre-a-manipulacao-do-anti-comunismo-no-brasil/ https://www.poderpopularmg.org/tirem-a-gente-desta-consideracoes-sobre-a-manipulacao-do-anti-comunismo-no-brasil/#respond Sun, 03 May 2020 16:07:35 +0000 https://www.poderpopularmg.org/?p=74436 DIVA MOREIRA

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Neste Primeiro de Maio de 2020, quero homenagear a classe operária e a camponesa abordando uma das mais insidiosas mistificações da história: o anti-comunismo! O Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, foi lançado em fevereiro de 1848. O Manifesto denunciava a super exploração dos trabalhadores pela burguesia e a necessidade de lutar para que essa classe fosse derrubada e os trabalhadores, também chamados de proletariado, assumissem o poder e construíssem uma nova sociedade sem classes e sem propriedade privada dos meios de produção.

Poucos anos antes, em 1845, pela primeira vez é publicado o livro de Engels: A Situação da classe trabalhadora em Inglaterra no qual ele denuncia as péssimas condições de trabalho e de vida de homens, mulheres e crianças. O Manifesto aparece no bojo de um intenso processo de lutas sociais e de produção intelectual, sobretudo na Alemanha (país de onde procedem os dois), França e Inglaterra, não por acaso os países nos quais a revolução industrial tinha se iniciado, sobretudo neste último país.

O domínio da burguesia no ocidente significava uma exploração sem limites e a negação de quaisquer direitos dos trabalhadores, sequer considerados sujeitos de direitos: as longas horas de trabalho não permitiam que fossem dormir em casa e ficavam amontoados nas fábricas, não havia repouso semanal, nenhuma proteção para evitar acidentes de trabalho, levando a mutilações e mortes de trabalhadores que às vezes cochilavam de tão longa e extenuante a jornada.

Se a gente conhece hoje direitos trabalhistas como a jornada de 8 horas, o repouso semanal, férias, direito de greve, de se associar em sindicatos para a defesa coletiva da classe, carteira de trabalho, aposentadoria, entre outros direitos, tudo isso contou com a vigorosa participação dos comunistas. Não teve nenhuma igreja, organização filantrópica (com raras exceções), universidade, imprensa, que defendesse os direitos da classe operária e camponesa.

Quais seriam as fontes deste visceral anti-comunismo? São muitas, mas vou abordar aqui uma delas: as religiões hegemônicas no ocidente. Marx afirmou em 1844: “O sofrimento religioso é, a um único e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. É o ópio do povo”. A última frase foi pinçada do contexto e brandida pelos fundamentalistas para combater impiedosamente o pensamento marxista.

O que as igrejas cristãs fizeram quando vieram à tona as informações sobre a brutal exploração da classe operária e camponesa, exatamente no ocidente cristão? Desconheço se as igrejas luterana (predominante na Alemanha) e a anglicana (que é hegemônica na Inglaterra) se moveram em defesa dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras.

No caso da Igreja Católica, ela só vai se manifestar sobre a necessidade de proteção dos trabalhadores em 1891, quando o Papa Leão XIII anuncia a Encíclica Rerum Novarum (Das Coisas Novas), 43 anos após o lançamento do Manifesto Comunista. Não cabe aqui perguntar sobre as motivações que a levaram a fazer isso para não desviar do rumo deste artigo. Mas não é demais mencionar o conteúdo anti-comunista das cartas atribuídas à inspiração de Nossa Senhora cuja aparição em Fátima teria ocorrido no dia 13 de maio de 1917 até 13 de outubro daquele mesmo ano!! Ora, exatamente naquele ano os partidos revolucionários dos trabalhadores e dos camponeses forçaram a abdicação do poder do Czar Nicolau II, em fevereiro, pondo fim a um dos regimes absolutistas mais cruéis da história do ocidente. Poucos meses depois, em 10 dias que abalaram o mundo, é vitoriosa a histórica Revolução de Outubro! Não é demais lembrar que o regime czarista tinha como um de seus pilares a Igreja Ortodoxa Russa!

Abrindo um parêntese podemos dizer que a figura de Grigori Rasputin, o místico da Igreja Ortodoxa Russa que era conselheiro da família do Czar, pode ser colocado em contraste com figuras como Olavo de Carvalho, Edir Macedo, Marco Antônio Feliciano e outros da mesma estirpe. Fazendo uma blague, diria que se Marx estivesse no Brasil escrevendo “Uma contribuição à crítica da filosofia do Direito de Hegel”, diante da força do segmento pentecostal na base deste desgoverno poderia afirmar: As religiões fundamentalistas (pentecostais e segmentos da católica) são o crack do povo!!

Mesmo rapidamente e incentivando quem me lê a continuar as pesquisas, acho que desmistificar o anti-comunismo passa também por um olhar sobre as aspirações da humanidade a uma vida de igualdade, o que remonta há milênios. Historiadores chamam de comunismo primitivo. Mesmo antes de Cristo, Platão em seu livro A República “concebe um modelo ideal de sociedade a partir da supressão da propriedade privada e da família…”

Agora, o mais surpreendente nesse anti-comunismo – apesar de compreensível – é o fato de que estas ideias de igualitarismo estão fundadas na mesma bíblia que eles usam para defender suas posições radicais e opostas a estas Utopias! Nas primeiras comunidades cristãs existiram as condições concretas de sua existência. Assim, nos Atos dos Apóstolos, capítulo 4, versículos 32 a 37, podemos ler o seguinte: “Da multidão dos que criam, era um só o coração e uma só a alma, e ninguém dizia que coisa alguma das que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns. Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça. Pois não havia entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que vendiam e o depositavam aos pés dos apóstolos. E se repartia a qualquer um que tivesse necessidade. Então José, cognominado pelos apóstolos Barnabé (que quer dizer, filho de consolação), levita, natural de Chipre, possuindo um campo, vendeu-o, trouxe o preço e o depositou aos pés dos apóstolos.”

Ao longo da Idade Média, movimentos camponeses também nutriram este sonho de igualdade e justiça, muitas vezes liderados por religiosos católicos dissidentes que buscavam reconstruir a utopia que inspirou os primeiros cristãos. Esses movimentos sociais foram perseguidos como heresias e impiedosamente massacrados. Vejamos alguns exemplos: “Entre os séculos 12 e 15 apareceram algumas ideais comunistas baseadas em pressupostos religiosos do cristianismo primitivo. Os cátaros (do grego kataroi, que significa “puro”) e os valdenses (seguidores de Pierre Valdo, um rico comerciante francês que abandonou todos os seus bens) se constituíram em dissidências da Igreja Católica. Em suas pregações, os adeptos desses grupos repudiavam a propriedade privada, exaltavam a pobreza e a necessidade de uma vida comunitária onde todos deveriam trabalhar e conviver igualitariamente…”

Esta digressão buscou mostrar que Marx defendeu no Manifesto Comunista aspirações milenares da humanidade e que continuam a existir até nossos tempos, daí a vitalidade do pensamento marxista.

Volto à questão da manipulação da consciência e da opinião pública contra os comunistas, que adquire colossais dimensões nesta era das tecnologias de informação e das Fake News que propagam o medo e o ódio contra os pobres, os negros e os povos indígenas, as mulheres e a população LGBT, que banalizam a mentira e enaltecem o engodo para distorcer a história.

Quero mostrar a importância, o papel, a imprescindível presença dos comunistas na história do Brasil. Em todas as áreas estivemos nós! Não há nenhuma luta na história do povo deste país que não tenha contado com a participação dos comunistas. Neste dia Primeiro de Maio de 2020, faço a minha homenagem abrindo um pouco esta pequena trilha de uma história negada e hoje cheia de entulho fascista, para que a leitura deste texto possa fazer o mínimo de justiça aos homens e às mulheres cujos nomes passarei a declarar com todo o respeito e orgulho neste momento:

Entre os líderes operários e camponeses, de uma lista muito grande destaco alguns nomes de Minas Gerais e de fora do estado, como Francisco Soares e José Francisco Neres (de Sabará), Anélio Marques, de Nova Lima, Roberto Morena, Armando Ziller, do Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte. Temos também, Astrojildo Pereira, Jacob Gorender, Otávio Brandão, Minervino de Oliveira (militante negro que foi candidato à presidência da república). Líderes camponeses, temos Gregório Bezerra e Francisco Julião, no Nordeste, José Porfírio, de Goiás, que foi preso em 1972. Seu nome consta da relação dos 300 desaparecidos durante a ditadura militar. Estes líderes, entre tantos outros, participaram da luta pela sempre adiada reforma agrária no Brasil.

Entre os militares, os líderes comunistas de maior destaque foram Luís Carlos Prestes, Dinarco Reis e Carlos Lamarca. Tendo liderado a Coluna Prestes, ajudou a expor a fome e a dura situação dos camponeses e dos sertanejos do interiorzão de nosso país.

Os comunistas atuaram para a implementação de políticas sociais que beneficiassem o povo brasileiro. Na decisiva área da saúde, e particularmente na humanização dos manicômios, dos asilos para doentes mentais, e depois chamados de hospitais psiquiátricos, onde vegetavam sobretudo pacientes negros, a psiquiatra Nise da Silveira é o ícone maior da luta por uma nova visão da loucura e por tratamento digno dos internos. Ela esteve presa durante a ditadura do estado novo.

Posteriormente, participaram da luta pela reforma sanitária no Brasil, que levou à criação do SUS. Os sanitaristas Sérgio Arouca, Jayme Landmann, Davi Capistrano Filho, Hélio Bacha e Pedro Dimitrov foram personalidades chave na história da saúde pública no Brasil. Davi, que fora secretário de saúde no município de Santos, chegou a ser prefeito da cidade por duas vezes. Na área da educação, Paschoal Leme foi defensor da educação pública e popular.

Na área da cultura a lista de personalidades é robusta. Podemos citar:

Pagu (Patricia Galvão) escritora e militante feminista, que era uma grande agitadora em São Paulo; foi perseguida e presa política por isto. Era amiga de Tarsila do Amaral e de Oswald de Andrade, e acabou casando-se com ele. Pagu e Oswald entraram no PCB nos anos 30; ela publicou um romance muito importante na época, chamado Parque Industrial.

Entre escritores, tem um mundo de gente importante, de norte a sul do país, como Jorge Amado cujos livros escancaram a tragédia social de nosso país. Também foi deputado constituinte em 1946 e inseriu no texto daquela Constituição o preceito da liberdade religiosa, consciente que era da violência e dos abusos sofridos pelas religiões de matriz africana, em qualquer lugar do país.

Outros proeminentes escritores foram Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, o editor Ênio Silveira (da Civilização Brasileira), Caio Prado Jr., que além de escritor foi também deputado constituinte em 1946. O escritor, poeta e militante negro Solano Trindade, que fomentou enorme trabalho artístico em Embu das Artes. Trago à lembrança outro escritor, Antônio Callado, o filósofo Carlos Nelson Coutinho, o físico e crítico de arte Mário Shenberg, e Ziraldo que é também cartunista.

Nas artes cênicas, temos o teatrólogo Oduvaldo Vianna filho (o Vianinha, fundamental no Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes), os teatrólogos Gianfrancesco Guarnieri, Procópio Ferreira, Dias Gomes e sua mulher, Janet Clair. No Cinema Novo, destaco Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirszman e o cineasta e compositor Sérgio Ricardo.

Entre os artistas plásticos, a lista é bem generosa: temos o pintor marinheiro José Pancetti, Fayga Ostrower, pintora e gravadora premiada que dava cursos sofisticados sobre arte moderna para turmas de operários. Cândido Portinari, Djanira, que se dedicou a pintar a cultura popular, a gravadora Maria Bonomi, Abelardo da Hora, que era também gravador em Pernambuco, e fazia gravuras sobre a vida nos mangues de Recife. Temos também Lívio Abramo, Sergio Ferro, o escultor Bruno Giorgi, e o pintor Quirino Campofiorito.

Dos pintores do Grupo Santa Helena, o mais conhecido é Alfredo Volpi, mas nem todos foram militantes. Eram humildes trabalhadores que pintavam a vida popular e a cidade industrial. Foram importantíssimos nos anos 30-40 em São Paulo, no escopo do Modernismo, que era dominado por gente da elite burguesa paulista. Além de Volpi, tem Francisco Rebolo, Aldo Bonadei, Alfredo Pizzoti, Clóvis Graciano. Gente simples do povo cuja profissão era pintor de paredes, açougueiro, operário, entre outras do gênero.

Entre os arquitetos, dois dos maiores são Oscar Niemayer e João Batista Villanova Artigas, criador da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e de enorme importância no Brasil e fora do país. Trago à memória também Antônio Bezerra Baltar, do Recife, e Frank Svenson que deu aula na UNB. Demétrio Ribeiro e Enilda Ribeiro um casal de arquitetos comunistas, do Rio Grande do Sul.

No campo da música e, particularmente, do samba, os comunistas honraram o partido alto! O Partido Comunista teve enorme importância na organização das Escolas de Samba, com Haroldo Costa e a pesquisadora da cultura popular Eneida (que foi companheira de prisão de Nise da Silveira e de Graciliano na Ilha Grande). No Rio de Janeiro, muitos compositores e sambistas foram militantes ou próximos do PCB, como Martinho da Vila, Paulo Sérgio Pinheiro e Clara Nunes, Beth Carvalho, e especialmente Dona Ivone Lara. Jorge Mautner também foi cantor e compositor comunista, bem como o maestro Francisco Mignone.

É curioso saber que o PCB, além de ter estado presente nas escolas de samba percebidas como um canal de aproximação com as camadas populares, “em novembro de 1946, no campo de São Cristóvão, o PCB organizou um desfile em homenagem a Luiz Carlos Prestes, do qual participaram 22 escolas. A maioria dos enredos exaltava o Cavaleiro da Esperança.”

No jornalismo, tivemos Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar, Pedro Mota Lima, Ancelmo Gois, José Carlos Alexandre e Kerison Lopes, os dois últimos de Belo Horizonte. Até o grande treinador de futebol e comentarista esportivo, João Saldanha, foi do Partido Comunista!

Como ativista negra que há décadas adotou o combate ao racismo como sua bandeira maior, sem perder de vista a perspectiva marxista e revolucionária, deixei para o final a citação de dois nomes que são as estrelas maiores da história dos comunistas no Brasil: Carlos Marighella (assassinado pela ditadura militar em 1969) e Osvaldo Orlando da Costa (o Osvaldão da Guerrilha do Araguaia). Também assassinado em 1973; ambos negros.

Para finalizar, devo dizer que alguns destes nomes mencionados podem ser encontrados também em lista de ex-comunistas. Um exemplo notório é Osmar Terra, um dos mais ferrenhos aliados do desgoverno Bolsonaro. Muitos alegam que a utopia comunista tinha sentido em seus tempos de juventude, outros ficaram desencantados com as experiências do socialismo real e com a queda do muro de Berlim. Também a força da ideologia do individualismo e a supremacia do mercado acabaram convencendo muitos de que não haveria outra saída para a humanidade, entre várias justificativas.

O fundamental é não perder de vista que a matriz da história é a luta de classes, o que significa ser uma marcha cheia de contradições, de êxitos e derrotas, avanços e recuos. Que o capitalismo nunca nos deu trégua e que tivemos poucos anos de vida legal em um país de tradição autoritária como o Brasil. Diante dessa realidade, prossigo marxista e comunista, com o coração cheio de esperança em um futuro de igualdade e de justiça. E com as mãos na massa, claro, sem o que não destruiremos a exploração de classe e a opressão de raça e gênero dos quais se nutre o capitalismo, sobretudo nesta fase perversa do neoliberalismo e da financeirização do capital.

Oxalá aprendamos as boas lições que a pandemia mundial do coronavirus pode nos ensinar: o sistema de mercado destrói os seres humanos e a nossa Biosfera. Não há solução para a humanidade nem para o Planeta via capitalismo. Sejamos ousadas e ousados para poder construir uma Sociedade Socialista, ou uma Terra sem Males, como dizem os povos indígenas!

Diva Moreira – jornalista e cientista política
Sabará, 2 de maio de 2020 (Era para ter postado ontem, mas não dei conta. Resolvi manter o título).

Para finalizar mesmo, deixo pra vocês este belo poema de Ferreira Gullar
sobre o Partido Comunista, escrito em 1982:

Eles eram poucos.
E nem puderam cantar muito alto a Internacional. Naquela casa de Niterói em 1922. Mas cantaram e fundaram o partido.
Eles eram apenas nove, o jornalista Astrogildo, o contador Cordeiro, o gráfico Pimenta, o sapateiro José Elias, o vassoureiro Luís Peres, os alfaiates Cendon e Barbosa, o ferroviário Hermogênio.
E ainda o barbeiro Nequete, que citava Lênin a três por dois. Em todo o país eles eram mais de setenta. Sabiam pouco de marxismo, mas tinham sede de justiça e estavam dispostos a lutar por ela.
Faz sessenta anos que isso aconteceu, o PCB não se tornou o maior partido do ocidente, nem mesmo do Brasil. Mas quem contar a história de nosso povo e seus heróis tem que falar dele. Ou estará mentindo.

O post Tirem a gente desta!! Considerações sobre a manipulação do anti-comunismo no Brasil apareceu primeiro em PCB/MG.

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