Arquivos Marxismo - PCB/MG https://www.poderpopularmg.org/tag/marxismo/ Poder Popular Minas Gerais Sun, 30 Aug 2020 12:33:52 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 Entrevista com o filósofo e escritor Yuri Martins-Fontes (parte II): MARXISMO, AMÉRICA LATINA E LITERATURA https://www.poderpopularmg.org/entrevista-com-o-filosofo-e-escritor-yuri-martins-fontes-parte-ii-marxismo-america-latina-e-literatura/ https://www.poderpopularmg.org/entrevista-com-o-filosofo-e-escritor-yuri-martins-fontes-parte-ii-marxismo-america-latina-e-literatura/#respond Sun, 30 Aug 2020 12:33:52 +0000 https://www.poderpopularmg.org/?p=74817 YAN VICTOR

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por Yan Victor 

[Entrevista realizada por telefone e por escrito; julho/agosto de 2020]

Na coluna desse mês damos sequência à segunda parte da entrevista com Yuri Martins-Fontes. Na primeira parte Uma conversa com o filósofo e escritor Yuri Martins-Fontes: Marxismo, Crise e Pandemia (parte I), o filósofo e escritor fez uma análise da conjuntura brasileira fazendo um balanço crítico da derrocada da estratégia democrático-popular e os desafios da esquerda nessa trama conjuntural. Nos brindou também com alguns comentários sobre a teoria marxista do valor, trazendo exemplos concretos de sua atualidade na realidade brasileira, sobretudo quando se intensifica sua face mais atroz, a saber: a intensificação da superexploração da força de trabalho, aumento do desemprego estrutural e dilapidação dos recursos naturais, esses ampliados com os desdobramentos da pandemia da covid-19.

Na esteira dessa primeira edição, agora Yuri nos apresenta uma leitura sobre Nossa América. Em um primeiro momento, o filósofo comenta sobre aqueles que identifica como sendo dois dos pensadores mais profundos e originais do período de formação do marxismo na América Latina: Caio Prado Júnior e José Carlos Mariátegui. Yuri nos fala sobre a pertinência de Caio Prado e Mariátegui na superação de uma concepção etapista e eurocêntrica, que importava modelos estrangeiros e analisava os processos de transformações sociais na América Latina como equação automática. O leitor encontrará a singularidade de Caio Prado e Mariátegui a esse respeito. 

Em um segundo momento, temos produções mais recentes apresentadas em primeira mão ao Portal Poder Popular – MG. Transcrevemos a fala de Yuri sobre seu “Relatório Final de Pós-Doutorado”, finalizado em 2017 na Universidade de São Paulo, sobre o tema: Marxismo e Saberes Originários: das afinidades entre os outros saberes e a concepção histórico-dialética. Aí temos um breve depoimento sobre as afinidades do pensamento, outrora chamado por Lévi-Strauss de pensamento selvagem, com a perspectiva histórica e ecológica de matriz marxista. Aporte esse que chega em boa hora, momento crítico em que lideranças indígenas, como Davi Kopenawa, denunciam o caráter destrutivo da civilização capitalista e profetizam a proximidade de seu fim (o que ficou conhecido como “a queda do céu”). 

A entrevista ganha um caráter etnográfico, ou mesmo biográfico, quando Yuri conta sobre suas viagens pela América. Escritor apaixonado pela “Pátria Grande”, claramente influenciado pelo romantismo socialista de Mariátegui, Yuri fala sobre suas viagens e suas experiências com os Zapatistas no México e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – FARC-EP. 

Essas viagens somadas a outras andanças que vão de São Paulo até o México, por terra e água, entre 2001 e 2002; e que depois continuam entre o Cone Sul e o Brasil do rio São Francisco e litoral; e que chegam a uma grande travessia feita de 2006 a 2007 desde a Europa até a Ásia, passando pelo Chifre da África, possui aspectos centrais na trajetória de vida do militante. Sob a verve crítica do escritor, essas viagens serviram de base histórica para contos, relatos e crônicas de viagens em um livro de três volumes de cunho literário, cuja publicação está próxima.

Por fim, finalizamos a entrevista com uma pergunta sobre o horizonte Latino Americano. Lá o leitor encontrará algo similar ao que foi dito outrora por Marx, já no fim de sua vida (entrevista de Marx cedida ao jornalista John Swinton, em agosto de 1880). O jornalista perguntara: Qual a lei última do ser? E Marx respondera: A Luta! Há mais de um século desta resposta, embora o horizonte de futuro latino-americano não seja muito animador: “seguiremos de cabeça alta” nos diz o entrevistado. E seguir aqui significa Lutar!

MARXISMO e AMÉRICA LATINA

1. Em 2018 a editora Alameda, com apoio da FAPESP, publicou seu livro Marx na América: a práxis de Caio Prado e Mariátegui, que é resultado de tese de doutorado na Universidade de São Paulo. Qual a pertinência desses dois autores para o marxismo latino-americano? O que eles têm de mais atual, que possa nos auxiliar a pensar o que estamos vivendo no Brasil e na América Latina de hoje?

Sim, Yan, o livro é fruto desta tese, em que tive a oportunidade de ser orientado por dois professores que são grandes  conhecedores dos temas do marxismo na América. O Lincoln Secco, professor de História na FFLCH, autor de várias obras sobre Caio Prado. E o Michael Löwy, professor brasileiro radicado na França que embora não seja especificamente um estudioso do Mariátegui, tem alguns interessantes artigos a seu respeito, e me recebeu para um estágio doutoral junto ao Centre National de la Recherche Scietifique; este contato permitiu que juntos desenvolvêssemos um interessante debate, através de um seminário semanal supervisionado por ele, sobre marxismo latino-americano, incluindo outros pesquisadores brasileiros que também estavam em Paris à época. Foi uma oportunidade para que todos aprendêssemos muito sobre este autor peruano genial e ainda pouco conhecido entre nós. A pesquisa foi favorecida também pelo fato de Paris ser uma enorme biblioteca, onde se encontram livros raros e inumeráveis pesquisas – e mesmo documentos históricos adquiridos ou roubados pelo colonialismo francês – material de pesquisa sobre tudo que se possa imaginar, inclusive sobre o marxismo latino-americano, pesquisas produzidas no mundo todo, a que pude ter acesso. 

Ao final, a pesquisa doutoral foi recomendada à publicação pela banca, e obteve apoio da Fapesp, sendo publicada em 2017 em primeira impressão, e em 2018 em edição definitiva.

Sobre o Caio Prado e o Mariátegui, eles figuram entre os grandes pilares do marxismo na América, dois pensadores que estão entre os primeiros que pensaram – desde uma ótica propriamente americana – o ferramental materialista-histórico iniciado por Marx e Engels. 

Os dois marxistas, como poucos outros do início do século XX, foram pioneiros em aplicar o marxismo de maneira autêntica a nossa realidade histórica – tão distinta da europeia –, evitando copiar soluções estrangeiras que não cabiam em nosso contexto. 

Por exemplo, não tivemos na América o feudalismo, como bem nota Caio Prado (em “A Revolução Brasileira”, de 1966, dentre outras obras), mas sim o escravismo, e portanto nossa “evolução” não foi nem poderia ser semelhante à da Europa. 

Uma ideia central na obra de Caio, mas também presente em Mariátegui, é a de que nossas sociedades americanas estavam incluídas desde sempre, subalternamente é claro, no movimento da consolidação do capitalismo europeu – mesmo antes de sermos propriamente capitalistas. 

Já o pensador peruano considera que, se um dia uma revolução democrática-liberal pôde ter sido necessária entre nós, as elites daqui não foram capazes de realizá-la. Nossas elites nunca foram “nacionalistas”, como as da Europa, ou mesmo da Ásia – povos consolidados há séculos, em que as classes dominantes se identificavam culturalmente com o povo. 

Em seu clássico “Sete ensaios de interpretação da realidade peruana” (1928), Mariátegui mostra, mediante diversas passagens históricas como nossas classes dominantes eram – e são – xucras, iletradas, fúteis, identificadas sempre com o que é de fora, com o europeu, com a língua de fora, com a cultura de fora; pensam que são brancos, querem ser loiros, não se enxergam como mestiços, muito menos se veem ao lado de seu povo. Caio Prado diz algo bem parecido sobre as elites brasileiras: ignorantes, sem projeto de país, sem identificação com a nação.

Mariátegui põe também sua atenção no aspecto “socialista agrário” da cultura indígena andina, que jamais aceitou nem assimilou os vícios “individualistas”, as imposições da cultura ocidental. Ele acredita que aí está o germe de nossa Revolução Americana: a tradição comunal.

Neste trabalho, dou atenção a um ponto crucial, uma concepção que converge no pensamento de ambos e os aproxima de outros dos grandes pensadores do marxismo universal, Gramsci e Lênin: nossas revoluções foram feitas “pelo alto” – foram movimentos liderados por cima, por facções menos medíocres da burguesia que perceberam que sem mínimas reformas, sem que se cedesse um pouco às classes populares, não se poderia avançar a independência política e o capitalismo. Assim, certas frações das elites, ao permitirem e mesmo dirigirem as mudanças que urgiam, apaziguaram momentaneamente as revoltas da população. 

Algo semelhante ao que fez – novamente – no Brasil parte do empresariado “progressista”, ao apoiar o projeto de reformas urgentes do desenvolvimentismo social petista, quando viam que já não podiam mais, por vias eleitorais, resistir à ascensão democrática de Lula: primeiramente se aliaram, depois impuseram mediante táticas das mais sujas, suas pautas. 

E disso tratam nossos dois autores: com tantas diferenças entre América e Europa, a consequência é que tampouco nossos passos revolucionários teriam de ser os mesmos que os dos europeus. Se lá fora eles passaram pelo capitalismo através de revoluções liberais, no nosso caso a situação era toda outra: e portanto eles se colocam contra as “alianças” com a burguesia supostamente “nacional”. Não existe “burguesia nacional”. Embora ambos defendam alianças pontuais de urgência – para amparar os mais vulneráveis –, o projeto político de país, dizem, não pode nunca se subordinar às classes dominantes. 

Lamentavelmente, o PT descobriu tarde demais que obter o governo não é deter o poder. Caio Prado mostra com números que a consolidação do capitalismo no Brasil – periferia do sistema – chegou mesmo a “piorar” a condição de certos dos trabalhadores, anteriormente meeiros, agora boias-frias famintos. 

Mariátegui mostra que o capitalismo quase destroçou as comunidades democráticas e autossustentáveis andinas, que só não se perderam porque mantiveram sua unidade, sua fé racional – agora em um novo mito: o da liberdade, o da revolução que reergueria seu povo e cultura.

2- Yuri, em termos de projeto político, você diria que as obras de Caio Prado e Mariátegui se aproximam de uma democracia radical com meta socialista? Ou compreendiam que em Nuestra América existia a possibilidade de transição a uma sociedade para além do capitalismo de bases coloniais? 

Como marxistas, ambos têm por meta a implementação de uma sociedade socialista. Porém não são ingênuos, e sabem que não basta gritar pelo socialismo para se conseguir levar a cabo uma efetiva revolução. Mariátegui entende que a oportunidade que a burguesia peruana teve outrora de realizar certas tarefas democráticas se perdeu, e que cabe agora aos socialistas levarem adiante tais tarefas, e aprofundá-las rumo ao socialismo. Caio Prado entende que é inócuo tentar definir profeticamente a forma como se dará uma revolução, de modo que a tarefa socialista é realizá-la paulatinamente mediante tarefas básicas, estando-se sempre atento às oportunidades de avançar o processo — ele cita a Revolução Cubana como exemplo de uma revolução que não se nomeou “socialista”, mas que se tornou socialista do seu percurso.

Para ambos, a tarefa do revolucionário consiste em mirar o socialismo, rumar no sentido de suas pautas, observar com atenção suas oportunidades de avanço revolucionário, realizando no dia a dia tarefas de urgência que possibilitem paulatinamente melhorar a situação miserável da maioria da classe trabalhadora do campo e da cidade, de modo a aumentar a conscientização popular acerca de seu problema. 

Como diz o Caio Prado (em entrevista a revista da Filosofia-USP), quando tivermos algumas dezenas de milhares homens dispostos a pegar em armas, a tarefa comunista será ajudar a armá-los; antes disso, precisamos lutar por condições para que sobrevivam, tenham direitos mínimos, e obtenham maior noção acerca da exploração que sofrem. Em suma, é preciso construir a situação revolucionária, não apenas falar dela.    

3. Um dos elementos presentes na obra de Mariátegui é a questão indígena. Em 2017 você terminou seu trabalho de pós-doutoramento sobre marxismo e saberes originários. Atualmente algumas lideranças indígenas (estou pensando em Davi Kopenawa e Ailton Krenak) vêm ganhando espaço em análises sobre a conjuntura, produzindo livros que criticam duramente a civilização moderna, capitalista e ocidental. Quais os caminhos e desafios para trabalhar com a questão indígena em países periféricos como o Brasil a partir do referencial marxista?

A crise estrutural do capitalismo de que falávamos, é uma crise também da própria civilização moderna, que, como expõe o historiador Koselleck, nasceu cheia de promessas de liberdade e desenvolvimento social jamais realizadas. Pelo contrário, vivemos numa sociedade cada vez mais destrutiva, controladora. 

“A natureza está ameaçada”, diz a grande mídia pseudo-ambiental, supostamente preocupada. Mas o que isso quer dizer, senão que o homem, ou a grande maioria da espécie, está ameaçada por um sistema que em nome de benefícios de poucas megacorporações, de mafiosos-abutres, agride, desregula o equilíbrio do metabolismo entre o homem e a natureza?

Diante disso, as sociedades originárias, com seus modelos de produção sustentável, com sua prática democrática cotidiana, têm muito a nos ensinar. E já estão ensinando. Veja-se a produção de alimentos saudáveis, sem venenos, sem câncer. Ou o refluxo que vem ocorrendo nas últimas décadas da urbe para o campo, com vistas a uma vida mais saudável. Não é um retorno ao rural profundo; é um rural que se usa sim de alguma tecnologia, mas sem uma extrema dependência dela. 

Com suas práticas saudáveis, sustentáveis, limpas, democráticas, o discurso ambientalista tem conseguido obter vitórias. Esses movimentos ligados à terra são o que o Joan Alier chama de “ecologistas populares”, são sociedades que são ambientalistas não só por decisão ética e racional, mas porque deste modo estão a defender suas próprias vidas, os territórios em que vivem, os recursos naturais de que vivem, seus filhos, a espécie. 

Quanto a este pós-doutorado que você mencionou, Yan, tive a supervisão do professor Paulo Arantes, estudei a convergência entre os saberes indígenas e o marxismo. No percurso, tentei traçar o histórico de como o dito “Ocidente” calou e pilhou os saberes originários, que em muitos aspectos era superior ao conhecimento europeu à época. Por exemplo, tem um tal Claude d’Abbeville, francês que chegou na América em 1500 e pouco, mais precisamente no litoral sudeste do que hoje é o Brasil; e ele em cartas zomba dos tupis por eles “acreditarem que a lua influenciaria as marés” – algo hoje óbvio mas que entre os ocidentais só será comprovado mais de meio século depois, por Newton. 

Isso mostra muito! Mostra a extrema falta de alteridade ocidental. Mas mostra também a grande ignorância dos europeus não só quanto à astronomia, mas à agronomia, aos alimentos! Não à toa, Josué de Castro, em sua clássica obra “Geopolítica da fome”, afirma que a Europa foi o continente que mais sofreu com a fome ao longo da história. 

Contudo, aconteceu que esta Europa – que era periférica no século XV, num mundo cujo centro estava entre a Pérsia e a Índia – esta Europa estagnada, até mesmo por estar alienada do crescente comércio global que emergia se aventurou ao mar: ou melhor, o mais periférico país europeu, o mais excluído, o mais sem saída, se lançou ao mar, e cruzou o mítico cabo do Bojador, enfrentou a morte, a dor, como diz Pessoa, e alcançou a América, usando-se para tanto da bússola dos chineses, da matemática dos egípcios, das armas de aço que tinham conhecido através dos povos da Ásia Menor, no milenar comércio afroeurasiático. 

Já os povos americanos, em seu continente isolado, se desenvolveram enormemente em agronomia, astronomia, nutrição, medicina, psicologia, e mesmo política, mas não tinham o aço, não puderam ter tantos contatos com tantos povos quanto os europeus. 

A partir daí, da invasão da América, é que a Europa começa a se tornar o centro do mundo: após pilhar as riquezas indígenas, e mais que isso, após aprender e roubar seus saberes, seus conhecimentos preciosos. E daí que os europeus obtêm recursos para investir em suas revoluções Científica e Industrial! 

Foi a batata dos que consideravam ignorantes adoradores do sol, que matou a fome histórica dos “doutos” cristãos adoradores do deus-correto – me refiro a este todo-poderoso que fez a mulher de um osso do homem pra depois aterrorizar Sodoma entre uns e outros milagres. 

Foram as riquezas roubadas da América que permitiram aos europeus, alguns séculos depois, superarem seus concorrentes chineses, indianos, e se tornarem o centro do novo mundo moderno… 

E isto dura até a Segunda Guerra, quando cedem o posto pros EUA, passando a ser apenas sócios menores. Mas isso começa a mudar. A China e a Rússia ascendem, os EUA declinam. 

E o Brasil que estava junto aos emergentes BRICS, crescendo, está agora lançado por uma elite mesquinha nesta miséria inominável…  

LITERATURA e AMÉRICA LATINA

4. Yuri, recentemente você vem se ocupando de um trabalho literário que tem como mote uma grande viagem sua pela América Latina, na qual você esteve em países como Venezuela, México, Colômbia, Perú, além da América Central. Poderia nos dizer o que podemos esperar desta narrativa? O leitor encontrará algo sobre sua estadia com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC-EP), ou sobre sua visita aos Zapatistas?

Sim, Yan, trata-se de uma narrativa baseada em algumas grandes viagens solo que realizei ao longo de meus trinta anos, na primeira década deste século, quase sempre por meio de transportes públicos locais, ônibus, barcos, trens, além de caronas. Entre idas e vindas, foram uns cinco anos de estradas, rios, mares. Dentre várias viagens menores, há duas expedições de cerca de um ano cada pela nossa América, uma de São Paulo ao deserto do Norte do México, outra pelo Cone Sul e o Sertão brasileiro; e por fim a maior viagem, de um ano e meio, em que atravessei o imenso continente conjugado da Afroeurásia, caminhando de Lisboa até Nova Delhi, percorrendo por terra e água toda a Europa latina e eslava, cruzando o Bósforo e o Oriente Médio, a Síria antes da destruição, entrando na África pelo Egito, subindo o Nilo rumo ao Sudão, Etiópia, e atravessando o Mar Vermelho num barco de gado rumo ao Iêmem, antes de chegar ao Mar da Arábia e por fim à Índia…

À volta, em 2007, trouxe comigo dezenas de milhares de fotografias e algumas dezenas de cadernos manuscritos, além de alguns idiomas. Realizei algumas exposições fotojornalísticas e em museus, e publiquei artigos, crônicas políticas, reportagens, mas por motivos materiais e políticos, tive de adiar a escrita desta grande narrativa como um todo, o que envolveria um tempo enorme. Retomei assim minha militância junto ao movimento de cursinhos populares, e comecei a dar aulas em faculdades e a trabalhar como tradutor, além de retomar atividades como revisor e jornalista de redação.

De início eu pensava formatar estas histórias enquanto crônicas de viagem, mas depois, envolvendo-me mais com a poesia, a prosa literária, me permiti certa liberdade autoral.  Descrevo um pouco desta aventura em minha página pessoal Travessias.

Dada a dimensão um tanto épica dessas viagens, resolvi dividi a narrativa em três volumes: um primeiro sobre a América de Sul a Norte; um segundo sobre o Cone Sul e o Brasil do rio São Francisco e litoral; e a terceira é esta grande travessia feita de 2006 a 2007 desde a Europa até a Ásia, passando pelo Chifre da África. 

O primeiro livro é sobre esta viagem que você mencionou, de São Paulo até o México, por terra e água, entre 2001 e 2002. Deve estar pronto daqui a alguns meses, oxalá. Estou revisando pela enésima vez… É neste livro inicial em que conto dessa estadia junto às FARC-Exército do Povo, em que passei cerca de um mês com os guerrilheiros, tendo vivido no acampamento de selva comandado pelo grande líder fariano e responsável pelas relações exteriores da guerrilha, o comandante Raúl Reyes, nas montanhas da alta floresta amazônica. 

Lá fui muito bem recebido e pude entrevistar este famoso comandante, que uns anos depois foi morto em um ataque traiçoeiro orquestrado pelos EUA no território do Equador, invasão que quase causou uma guerra com a Colômbia. 

Além dele entrevistei também guerrilheiros comuns, conhecendo detalhes das histórias desses homens e mulheres que entregaram suas vidas por uma causa, muitos por idealismo, outros por necessidade, num país mais desgraçado e desigual que o Brasil. Um deles me disse: “Não tive estudo, não pude conhecer bem o que é o comunismo, mas sei que na miséria extrema em que eu e minha família vivíamos, não era mais possível deixar de tentar fazer algo”. 

Estive também com povos indígenas na Amazônia, em acampamento do MST, e travei contato com membros dos Zapatistas, no estado de Chiapas, no México, além de ter podido visitar Cuba ainda com o lendário comandante-em-chefe Fidel Castro vivo, a quem infelizmente não falei nem fotografei, apesar de ao menos ter podido sorrir ao ver a ponta de sua imensa barba branca dentro de um carro, num dia em que ele foi à televisão estatal falar à nação, após um dos tantos atentados dos mercenários de Miami em Havana, quando destruíram a embaixada mexicana. 

5. Sobre seus escritos de maneira geral, na filosofia, na literatura, você poderia nos contar algo sobre os grandes autores, pensadores, escritores, que lhe influenciaram, recomendar alguns que você considera fundamentais à formação contemporânea de um jovem intelectual ou artista crítico?  

Considero essencial a qualquer um, se desenvolver em todas as potencialidades humanas, o intelecto, os sentimentos, o corpo, a imaginação. Creio que essa busca pelo equilíbrio favorece qualquer atividade a que nos dediquemos. Creio que um intelectual, um escritor, um militante não podem ser pessoas bitoladas, fechadas às novas experiências, às ricas possibilidades que a existência real e única pode possibilitar. Infelizmente ainda há muito conservadorismo social, muito moralismo raso, na chamada “esquerda” política. 

Bem, sobre aqueles que me influenciaram – digo influência no sentido não de devoção, mas de abertura de horizontes para que eu pudesse melhor elaborar minhas próprias concepções –, enquanto pensadores teóricos, acho a genialidade do Marx sublime: ele mistura na sua escrita erudição e rigor, com ironia, literariedade. Mas também acho o Engels grandioso, um parceiro que além de complementar as ideias do amigo, trouxe contribuições preciosas à filosofia dialética da práxis. E o arguto Lênin, mestre da estratégia, da visão política prática: a arte de saber se comunicar com o povo, que tantos teóricos ensimesmados, socialistas acadêmicos entrincheiradosno conforto asséptico das universidades, passa longe. 

Fora do campo do socialismo, gosto de certas ideias do Nietzsche (aliás, Mariátegui foi um dos primeiros marxistas a analisar a importância de seu pensamento), que apesar de ter um lado bem conservador, é um crítico mordaz da superficialidade, da artificialidade da vida burguesa pobre de espírito, amoral, torpe… Como bem nota o Antonio Candido, ele precisa ser mais lido pelos socialistas. 

Na América, além do Mariátegui e do Caio Prado, cito os cubanos José Martí e o Julio Mella, o argentino Aníbal Ponce, o caribenho Frantz Fanon, o Werneck Sodré, mais recentemente o Florestan Fernandes. São tantos – mereceriam uma outra conversa. 

Na irmã África, com questões bastante próximas às nossas, é preciso conhecer o revolucionário lusófono Amílcar Cabral, o ganense Kwame Nkrumah…    

Na literatura moderna, recomendo o altamente sarcástico crítico da modernidade Heinrich Heine, que tanto Marx como Nietzsche consideravam dentre seus escritores prediletos. O Dostoiévski, que com sua profunda sensibilidade antecipou a psicanálise; o Jack London, um aventureiro que chegou a mendigar, ser pirata, e foi um dos primeiros divulgadores socialistas estadunidenses, escritor de narrativa ágil. Dos de fora, cito ainda a Anais Nin, o Hemingway. 

Já dentre os nossos, aprecio demais Machado, Lima Barreto, Graciliano, o colombiano García Márquez, o paraguaio Roa Bastos, os formidáveis Guimarães e Clarice Lispector, e por que não o também “nosso” Saramago… Todos eles também filósofos, sob a rubrica da literatura. 

Na poesia, nosso povo, nossa língua, menciono Bandeira, Drummond, Pessoa, Mário de Andrade, Vinícius, Cecília Meireles, Florbela Espanca, Ernesto Cardenal, Manoel de Barros, Leminski. Mas também Brecht, Maiakovski…

6. O horizonte de futuro latino-americano não parece muito animador. Você teria alguma avaliação sobre os desafios e perspectivas para nossa América?

A situação está ruim mesmo. Mas não devemos perder a fé nas possibilidades de transformação: digo, a “fé racional”. O mito revolucionário, a esperança na emancipação humana, a utopia real de que nos fala Mariátegui, é um componente imprescindível da luta de um comunista; ao lado da importância de se conhecer a fundo as contradições da realidade. 

Daí a centralidade da categoria da “práxis” no materialismo-histórico: a ideia de que é imprescindível não só refletirmos dialeticamente sobre os conflitos da sociedade, mas efetivamente transformarmos essa sociedade. Ou seja: é preciso tornar “realidade prática” a nossa “teoria”; teoria esta que, por sua vez, foi fundada na prática, no “real”, e portanto, conforme modifiquemos esse real, ela deverá ser novamente teorizada, refinada, sempre.

Por sua própria crise estrutural, de que conversávamos, o capitalismo tende a terminar. Mas não sabemos quando; há que se pressionar, que se apressar este “fim”, e em um sentido socialista. 

Pois veja que tampouco sabemos se o que virá depois (o “pós-capitalismo”) será enfim o socialismo, uma forma mais democrática e solidária e racional de se produzir e gerir a sociedade, ou se será um regime ainda mais autoritário, mais iníquo que o atual, uma espécie de império de meia-dúzia de monopólios associados. Somente a luta dirá o novo “sentido da história” (conforme o conceito caiopradiano).

Ainda que a informática, a internete, sejam bem pouco democráticas e sirvam para as corporações arrebanharem os ingênuos e promoverem a irracionalidade, os povos estão cada vez mais “vacinados”. Já não é tão fácil promover barbaridades como antes. Veja-se estes policiais energúmenos que matam a torto e a direito pelas quebradas: só que hoje eles são filmados pela vizinhança… E aí o bicho pega.

Temos de nos organizar, de nos associarmos a uma causa que sejamos afins, e militarmos por ela, com perseverança, paciência, sem nos iludirmos ou abatermos com vitórias ou derrotas parciais, momentâneas. A história nos dará a vitória – se a espécie sobreviver. Ou senão, pelo menos há a trégua do fim-comum. Mas antes disso seguiremos de cabeça alta e resistindo ao desastre capitalista.

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por Yan Victor 

[Entrevista realizada por telefone e por escrito nas primeiras semanas de julho de 2020]

A pandemia encontrou um mundo atravessado pelo conflito de classes. No Brasil, o índice crescente de desemprego e a precarização do trabalho impedem as classes sociais mais baixas de fazer o isolamento social e permanecer em casa na quarentena. Com o objetivo claro de colocar o lucro acima da vida humana, as classes dominantes e o governo Bolsonaro mantêm uma política destrutiva que abertamente coloca trabalhadores e trabalhadoras na fila do matadouro. Nesse momento, o isolamento social se choca com as condições materiais de existência. Como pagar o aluguel, água e luz? Deixar o trabalho e ficar sem comer? 

Nunca esteve tão claro que quem produz riquezas são as classes que trabalham. Essa constatação coloca em relevo a atualidade da obra marxiana e marxista. Acaso as máquinas produzem sozinhas? Retomando economistas como David Ricardo, Marx descreve em sua Contribuição à crítica da economia política que por trás do lucro está o trabalho. Indo além, Marx revela que o capital só se desenvolve a partir da força de trabalho. Sobretudo nos capítulos 11, 12 e 13 de O Capital, temos um processo histórico que vai da cooperação simples, manufatura e divisão social do trabalho, até a grande indústria e maquinaria. Nesses capítulos, além do conceito de “trabalhador coletivo”, Marx desenvolve uma análise profunda demonstrando que não se trata apenas da maquinaria e dos objetos de trabalho, mas das relações sociais. A divisão social do trabalho operada na manufatura subordina o trabalho autônomo dos artesãos, e cria condições para o desenvolvimento da maquinaria.

Esse desenvolvimento que amplia a divisão social do trabalho, apropria-se do trabalho autônomo e, por conseguinte, concentra trabalhadores sobre o comando de um único capitalista, opera a mais crassa contradição. O trabalhador não domina mais o processo de trabalho e começa a degradar-se material e espiritualmente no processo de apropriação coletiva (subsunção real). Na perspectiva de Marx, na indústria moderna temos a redução do tempo de trabalho necessário e a reprodução ampliada da força de trabalho, para assim, ampliar o tempo de trabalho excedente: o mais-valor.

Ora, qual a atualidade da teoria marxista do valor? E qual a sua relação com a conjuntura brasileira? Para falar sobre esse tema, convidamos o filósofo marxista e escritor Yuri Martins-Fontes. 

Yuri é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo, com estágio no Centre National de la Recherche Scientifique; tem pós-doutorados em Ética Marxista, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, e em História, Cultura e Trabalho, pela PUC-SP. Publicou recentemente os livros: Marx na América: a práxis de Caio Prado e Mariátegui (Alameda/Fapesp, 2018), e História e lutas sociais: a classe que trabalha em movimento (EDUC, 2019). Organizou e traduziu obras importantes ao marxismo contemporâneo, como a antologia Defesa do Marxismo: polêmica revolucionária e outros escritos, do pensador andino José Carlos Mariátegui (Boitempo, 2011); e o livro ensaios e fotografias históricas Revoluções, coordenado por Michael Löwy (Boitempo, 2009). É pesquisador associado ao Laboratório de Economia Política e História Econômica da USP, e atualmente coordena o Núcleo Práxis de Pesquisa, Educação Popular e Política da USP. Exerce também atividades como ensaísta, educador, editor e jornalista, colaborando com diversos canais críticos e independentes do Brasil e da América Latina. 

A entrevista, realizada por meio telefônico e escrito, foi dividida em dois momentos. Nessa primeira parte, o filósofo faz uma análise sobre a trama conjuntural brasileira, abordando os desafios dos socialistas hoje. Além disso, traz uma interpretação específica da crise estrutural, tendo como mote as formulações de Marx sobre a Teoria do Valor. 

Na sequência desta publicação, em um segundo momento, será editada a continuação dessa entrevista, em que apresentaremos diálogos e reflexões sobre Marxismo, América Latina e Literatura.

Desejamos uma boa leitura! 

PANDEMIA e CRISE

1. Yuri, inicialmente gostaria de agradecer a disponibilidade de ceder essa entrevista ao Portal Poder Popular MG. Começaria com uma pergunta ampla: como você avalia o governo Bolsonaro e os desafios da conjuntura brasileira para a esquerda hoje?

Agradeço a gentileza do convite, Yan. É bom voltar a conversar com você, após nosso interessante debate no Norte de Minas Gerais, ano passado. E antes de tudo, um abraço aos amigos do Partidão mineiro.

Bom, a pergunta é difícil… Bolsonaro é um dos frutos mais podres do golpe de 2016, este golpe em nova roupagem, gestado ao longo de anos pelos principais poderes conservadores do país: o Congresso amplamente fisiológico; um STF medieval montado em privilégios; uma elite econômica sem-vergonha, inculta e ambiciosa, formada em sua quase totalidade por sonegadores, industriais que quando pagam algum imposto são quantias irrisórias; e uma imprensa corporativa porta-voz dessa desonestidade geral nacional, especialmente as grandes irmãs Globo, Abril, Estadão e Folha imprensa suja cujo trabalho foi convencer paulatinamente a população de que o PT havia sido o “inventor” da corrupção no Brasil, ainda que o próprio TSE mostrava que, dentre os grandes partidos que têm chance de chegar ao poder, o PT era o mais limpo. Aí o resultado… 

Hoje, a miséria voltou a assolar o país, que tinha saído do mapa da fome, e estes criminosos começam a verificar que suas tantas manobras não lhes serviram a seus propósitos: também eles estão tendo fortes prejuízos com sua tática de terra arrasada. 

Para eles era “tudo menos o PT”, tudo inclusive o fascismo. O que importava aos neoliberais era passar com celeridade as contra-reformas, retirar direitos sociais em nome da manutenção de seus lucros mesmo em época de crise mundial. Assim, na falta de apelo popular dos seus discursos datados, pensaram que poderiam controlar o atual idiota do Planalto, e que “apesar dos pesares” eles obteriam suas tão desejadas demandas antipopulares: o fim dos direitos trabalhistas, da aposentadoria, dos sindicatos críticos… 

Porém o fascismo tem um elemento de irracionalidade que é sempre uma ameaça aos negócios dos mercadores; se tivessem estudado mais história, talvez fossem menos tolos, e o prejuízo, deles e do povo, menor. 

O fascismo – como Mariátegui e outros pensadores já o mostraram há quase um século – é a roupagem antidemocrática do capital para tempos de crise, quando o capitalismo não consegue mais se manter em seu discurso “liberal”, nem se fingir “democrático”. Em seu ensaio “Crisis de la democracia”, originalmente parte do livro La escena contemporánea, de 1925, e incluído na edição brasileira de suas obras que organizei, Defesa do marxismo: polêmica revolucionária e outros escritos (Boitempo, 2011), Mariátegui entende o fascismo como a expressão insana de uma classe dominante que já não se sente protegida por suas instituições pobremente democráticas. 

Porém, os neoliberais brasileiros, ao provocarem a polarização, perceberam-se sem forças para derrubar a centro-esquerda socialdesenvolvimentista em 2014, e não querendo voltar atrás, tiveram de optar pelo risco do irracionalismo fascista. Eles apostaram e todos perdemos.

Os prejuízos econômicos já estão dando mostra de que o plano de domar a besta para passar as contra-reformas fracassou, e que a estupidez de Bolsonaro e seus asseclas é tamanha que atenta contra os lucros seguros que mantinham outrora – mesmo sob os governos de conciliação do lulismo.

Os desafios do campo progressista são muitos, a começar por derrubar este louco que já passou de todos os limites, até mesmo para tocar os negócios que o capital esperava que tocasse, e por isso está fragilizado e ao que parece começa a cair.

Por outro lado, um governo de conciliação horizontal, como foram os de Lula e Dilma, já não são mais possíveis naqueles moldes. Seria muita tolice aceitar um traíra como Temer novamente para se sentar ao lado. 

É preciso uma unidade do campo progressista, sem esse necrosado “centrão” – fisiológico, velho regime sempre morto, mas nunca enterrado.

Mas para tanto, esse projeto de novo país tem de ser respaldado pelos movimentos sociais, pelas massas trabalhadoras. Pois somente assim, o fato de se ascender ao governo poderá significar realmente deter um poder capaz de transformar as estruturas – um poder suficiente para que o campo socialista possa governar com efetividade, com hegemonia, sem se submeter a supostas alas “progressistas” burguesas. 

E este me parece o maior erro lulista: ainda que socialmente os governos Lula e Dilma tenham realizado reformas de alta urgência, que fizeram do Brasil por uma década um país minimamente humanizado, minimamente respeitável diante do mundo, contudo, o Partido dos Trabalhadores se afastou de suas bases, das massas populares que o elegeram. E isto teve por resultado que, enfraquecido frente a uma grave crise econômica mundial, atacado desonestamente pelas alas mais reacionárias – que sempre estiveram nas entranhas do poder, ainda que por alguns instantes mais caladas –, o lulismo não conseguiu fazer que suas transformações sociais se tornassem “estruturais”; não valorizou a força política das ruas; achou que dava para humanizar o país só no diálogo. 

Em suma, o PT confiou demais na mansidão desta nossa elite que é uma das mais reacionárias e violentas do mundo – não à toa somos um dos mais desiguais países do planeta.

Conforme discuto no livro Marx na América (p.60 e ss.), Mariátegui e Caio Prado defendem como necessárias ao processo revolucionário certas reformas de urgência, reformas básicas que promovam a reumanização de estratos completamente excluídos da sociedade – algo como as reformas iniciadas pelo lulismo. Porém – e ambos os autores marxistas põem muita ênfase nisso –, a condução dessas reformas, para que tenham efetividade e não se percam ao primeiro ímpeto golpista (como está se dando agora), tem que ser feita pelos próprios partidos progressistas populares, ou socialistas no sentido amplo do termo. Não se pode nunca permitir que eventuais apoios pontuais, de uma parcela menos irracional da burguesia em crise, sirva a eles de trampolim para que assumam as rédeas, dirigindo o sentido e o ritmo das mudanças. 

E como se viu, o PT perdeu esse comando ao não ousar pôr na pauta do dia: a democratização da imprensa (ainda dominada por corporações porta-vozes da elite, que liderariam o discurso e propaganda prévios ao golpe neoliberal de 2016); a reforma tributária (como a luta pelo imposto mais óbvio que deveria haver sobre as imensas fortunas, em um país no qual o pobre chega a pagar quase metade de seu salário em impostos de consumo básico, enquanto os maiores magnatas, sonegadores, não contribuem sequer com 10%, segundo pesquisas recentes). O PT perdeu fôlego ao não insistir em um enfrentamento mais profundo dos latifúndios; ou mesmo ao desistir de tentar renacionalizar os comandos vendidos das Forças Armadas, que após 1964 expurgam seus altos-militares mais lúcidos e patriotas. 

De fato, sem muito povo nas ruas, não se poderia enfrentar tais temas. 

Caio Prado e Mariátegui, embora não tenham se dedicado à teorização específica do conceito de “hegemonia” (como o fez Gramsci), entendem este fenômeno de forma muito similar à do italiano, a saber: que o processo revolucionário em nossas nações subalternas, de início deve pôr peso em reformas pela conscientização das massas, um processo paulatino que, em alguns momentos históricos de severa crise, pode ser acelerado pelos socialistas organizados, proporcionando brechas para a ação revolucionária decisiva. 

O problema é que o PT desistiu de alcançar esta necessária hegemonia de consciências e forças; desistiu de enfrentar o monstro estrutural, legado do golpe militar de 1964 (ditadura que, aliás, como nota o professor Paulo Arantes, nunca acabou). 

O PT achou que daria para confiar na “racionalidade econômica” ou certo resquício de “nacionalismo” de nossa burguesia interna, associada menor do capital externo. Está aí o resultado: juízes e procuradores vendendo ao exterior informações confidenciais do Estado, inclusive sobre nossas maiores riquezas, minando nossa economia em nome da hegemonia cultural conservadora, destruindo nossas empresas estatais… 

Como demonstrou o grande comunista do Partidão, Caio Prado Júnior, o Brasil nunca teve uma “burguesia nacional”: e o PT não poderia ter se esquecido de estudar esta lição do mestre.

Ainda assim, me parece hoje um tanto indiscutível que o PT ainda é, em curto prazo, o único partido no campo progressista com chances de disputar a macropolítica. Me refiro sobretudo ao campo do Executivo federal, que é essencial ao poder transformador. E para tanto – para que possa ter a força necessária não só para se eleger, mas para levar a cabo mudanças perenes, estruturais –, o partido precisa se reaproximar de suas bandeiras históricas, e apesar de sua orientação social-democrática de há tempos, tem de se aliar aos partidos socialistas em todas as suas nuances, dos socialistas revolucionários aos social-democratas seus similares, ou seja: desde seus parceiros social-reformistas do PCdoB, passando pelo tão matizado socialismo-democrático do PSOL, e chegando ao socialismo-radical, como o dos comunistas do PCB. 

E inclusive, dada a conjuntura de crise liberal e consequente fascismo em instauração, e tendo em vista a fragilidade atual do campo progressista, é importante uma tentativa de diálogo até mesmo com setores desse “centro” político que transita entre o progressismo e o fisiologismo, como os neogolpistas do PSB e do PDT (que um dia, nos idos de Miguel Arraes e Brizola, levantaram decentemente a bandeira socialista). Mas isto, é claro, sem incluir esse aventureiro do Ciro Gomes, caudilho perigoso, personalista, fundador (talvez arrependido) do PSDB, mas que nunca teve projeto de país; esse sujeito não é um estadista, mas um embuste que vaidoso busca o poder pelo poder. Não serve para compor uma frente progressista: seria pelo menos igual, senão pior que os ratos medianos que povoam o PMDB, pois é um animal um tanto mais sagaz.

Para que uma frente ampla progressista tenha força para disputar, não só o governo, como o poder real, é preciso que o candidato do PT a ser construído (já que visivelmente não deixarão o Lula participar, a não ser que seja para derrubá-lo na “Justiça” tão logo seja eleito), é preciso que esse novo candidato esteja respaldado pelas forças populares dos movimentos sociais de massas, como o MST, o MTST, e os sindicatos de luta – enfim, que este novo líder seja reconhecido pelo conjunto da classe trabalhadora. 

Embora a construção desta união progressista, em curto prazo, necessariamente passe por uma chapa encabeçada pela social-democracia petista (reformista com discurso “humanitário”, pois que a um socialista revolucionário que tivesse chances de se eleger, o sistema sequer permitiria a participação no pleito), parece-me que um candidato a vice de um partido realmente socialista seria importante na consolidação dessa Frente. 

Assim, sob um governo ao menos humanista, que mantivesse uma mínima ética e racionalidade, os socialistas teriam – como o defendiam Caio Prado e Mariátegui – mais espaços para desenvolver a capilaridade de seu discurso no meio popular, cuja penetração ainda é pouco efetiva nos rincões e periferias do país. 

É portanto, de modo gradual, que ambos os marxistas concebem que se poderá melhor consolidar os ideais socialistas em nossos países periféricos – em nossas nações incompletas, cujas elites eles veem como extremadamente incultas e desonestas. Defendem assim reformas de urgência, imediatas, que satisfaçam as necessidades mais vitais do exército de miseráveis e moribundos, reformas que permitam ao povo se alimentar e se abrigar, para então poder ter forças para lutar… O tal dito popular: saco vazio não para em pé. Marx e Engels já falavam disto: o homem precisa comer, dormir, estar vivo para fazer a revolução. 

Penso que os socialistas, ao apoiarem a eleição de um social-progressista no âmbito da “política real”, da “política eleitoral” que é – e tem sido desde sempre – bem suja, não estão declinando de seu objetivo revolucionário, de seus princípios, mas apenas descendo do altar da teoria pensada por aqueles que almoçaram (ainda que não como gostariam), para o chão material da urgência, em que se arrastam famélicas dezenas de milhões de famílias brasileiras. E é no chão material e enlameado que se definem as revoluções. 

Como pondera o Caio Prado, em famosa entrevista de 1967, a revista da USP: quando tivermos uns “30 ou 40 mil trabalhadores dispostos a pegar em armas, é evidente que nossa tarefa [do partido] é arranjar armas” para todos, e tentar com eles “tomar o poder”; mas não se pode “programar a luta armada, se não existem elementos capazes de concretizá-la” (Marx na América, p.78).

Enquanto não se constrói tal cenário favorável, cabe a um partido socialista manter a independência de seu discurso, ser radical, defender sempre seus princípios de raiz, e em diálogo com o povo, no trabalho cotidiano da militância que busca fomentar a conscientização junto às classes subalternas. 

Mas no campo imundo e imediato da “política real”, um socialista inteligente (e alimentado) não deve se abster de orientar seus votos ao mal menor (no caso das últimas eleições, aos social-democratas da “articulação” petista-paz-e-amor, contra o energúmeno que se elegeu). Um gesto incômodo, extremado – mas uma necessária tomada de partido contra a aliança neoliberal-fascista dos facínoras que quase sempre mantiveram as rédeas nacionais. 

E claro, imediatamente após o pleito, no dia seguinte da história, que se retome a oposição crítica, dialética, paciente, disciplinada. 

 

2. Recentemente você publicou dois artigos em sua coluna da Revista Fórum sobre a origem e as responsabilidades da pandemia. Como você avalia esse contexto de crise estrutural do capital e sua relação com a covid-19?

Sim, eu dizia nestes artigos que embora o Trump insista em culpar a China pela pandemia, isto é discurso calculado, falacioso, cuja intenção é a de obter privilégios na guerra comercial e geopolítica que a superpotência vem travando – e perdendo – contra a potência emergente asiática. Mas que na realidade, a grande responsabilidade pela pandemia é dos próprios Estados Unidos – e dos europeus-ocidentais, seus vassalos desde o fim da Segunda Guerra. 

A culpa pela pandemia é das nações do “centro” do sistema capitalista, destas potências que compõe o dito Grupo dos 7 (G-7) e que – ainda – dominam o globo e continuam a impor a todo o resto periférico do mundo um modelo de produção destrutivo, cada vez mais nocivo ao homem e à natureza. 

Embora não se tenha certeza ainda acerca da origem animal deste novo coronavírus, tudo indica que a covid-19 seja zoonótica. Nas últimas décadas têm surgido diversos vírus semelhantes que causam zoonoses, ou seja, doenças transmitidas de animais ao homem, muitas delas vindas de animais selvagens que tiveram seus habitats devastados, e que daí acabaram se aproximando das cidades. 

São a resposta da natureza ao ser humano e seus ataques. Esta é a consequência contemporânea do capitalismo nesta época em que a chamada “crise estrutural” se agudiza: ou seja, o desemprego aumenta sistematicamente, dada a tecnologia que avança, e assim os lucros caem, o que leva os senhores do mercado a partirem em aventuras devastadoras em busca de novos territórios a serem explorados, visando com isso adiar o prejuízo da crise que eles mesmos criaram.

Em suma, se este vírus surgiu “ao acaso” – de modo parcialmente “natural”, por assim dizer – trata-se de um acaso forçado pela devastação da natureza, fenômeno levado a cabo pelo capital que está desesperado e busca manter a todo custo seu insustentável crescimento econômico.

Por outro lado, se o vírus é de laboratório – é mais uma prova do quão patológica é nossa civilização suicida, irracional, que se arrisca à extinção por disputas materiais, geopolíticas, que já poderiam estar superadas, pois a produção imensa que temos hoje daria para todos os bilhões de seres humanos viverem com qualidade de vida, bem alimentados e sãos – segundo dados da ONU – se a produção fosse minimamente bem repartida.

3. Com a pandemia alguns intelectuais e militantes sociais no campo do marxismo vem afirmando que nunca esteve tão claro que quem produz riquezas é o trabalho. Além da complexa teoria do valor-trabalho, você diria que o momento que estamos atravessando atualiza elementos da obra marxiana (ou do marxismo latino-americano)? 

Pois é, este vírus, ao contrário da maioria das doenças, atemorizou certos setores menos estúpidos das classes dominantes, forçando até mesmo governos da direita-liberal, como Dória e Witzel, a se submeter à natureza e decretar a quarentena. Esta doença tem algo de, digamos, “democrático”: mata ricos; embora sejam sempre as classes subalternas as mais afetadas, pois não possuem recursos para se defenderem com bons hospitais e médicos responsáveis – duas coisas bem raras neste país.

A paralisação contingencial que estamos vivendo, contudo, vêm sofrendo resistência por parte do empresariado mais fundamentalista, que realiza “buzinaços” pelo país. E claro, isto com o incentivo de um dos mais ignóbeis dentre os presidentes que já atrasaram a história desta nossa triste semi-nação, que jamais conseguiu constituir instituições sólidas, nem humanas.

Por que se arriscam tanto, a si e a sua família, estes magnatas? Porque percebem que não bastam máquinas hipermodernas para a economia funcionar. Com os trabalhadores parados, sozinhas as máquinas nada produzem. Quem produz riqueza é o trabalhador, é dele trabalhador que o patrão extrai, ou antes subtrai seu lucro. 

A economia capitalista funciona mais ou menos assim: o empregado trabalha durante determinadas horas a um patrão, mas só é pago por parte destas horas trabalhadas. As horas restantes são açambarcadas pelo proprietário da fábrica, o dono das máquinas. 

Este é o mecanismo para o roubo de algumas horas de trabalho de cada trabalhador a cada jornada: a patronal paga de salário a cada trabalhador um pouco menos do que a remuneração que lhe seria devida pelas horas que trabalhou. Esta é a tal mais-valia exposta pelo economista, historiador e filósofo Karl Marx. São estas horas extras não pagas – ou sem eufemismos, roubadas de cada empregado, dia após dia, que compõem o lucro dos capitalistas. 

Assim, na quarentena, como acontece também nas greves, fica mais clara a dimensão concreta desta teoria de que não são as máquinas que criam riquezas! Os bens de que necessitamos são criados por aqueles que trabalham. Mesmo que se tenha um maquinário excelente, de última geração, com capacidade produtiva altíssima, é preciso haver trabalhadores para tocar essas máquinas; trabalhadores de quem se explora o trabalho. 

E aqui podemos ver a importância da organização de manifestações, de paralisações, e sobretudo de greves gerais – como ferramentas efetivas da classe-que-trabalha para pressionar com firmeza a classe-que-explora. Sem os operários, a indústria pára, a economia declina, como está acontecendo agora. 

Mas observemos então outro aspecto da questão: é claro que com máquinas cada vez mais modernas, o capitalista precisa de cada vez menos pessoal na operação produtiva… Mas sempre precisará de alguns. E aqui está o cerne da complexa teoria do valor-trabalho a que você se referiu, desenvolvida e esmiuçada por Marx. 

Desde o fim dos anos 1960, o próprio progresso capitalista tem levado o capitalismo a uma sinuca de bico. Aliás, “progresso” entre aspas, pois que não se trata de um desenvolvimento de fato humano, emancipatório, mas somente evolução técnica. 

Ocorre que com o avanço da automatização, o lucro tende a cair, como eu mencionei há pouco. É por este fenômeno que nos anos 1960 declina o Estado de bem-estar social – e aliás a consequência dessa retirada de direitos sociais é que geraria as revoltas que se espalham pelo globo por volta de 1968.

O capitalismo desde sempre, mas especialmente desde o final do século XX, sofre de uma crise que não é só cíclica, passageira como as tantas que vimos e vemos na história. Trata-se da “crise estrutural”, uma crise concernente a sua própria lógica de crescimento.

Ou seja: o capitalismo não planifica sua produção, não produz itens que o ser humano necessita, mas sim produtos que “vendam bem”, que deem lucro; e faz isso de modo desordenado, em uma espécie de guerra fratricida de todos contra todos, em que cada industrial tenta ultrapassar o colega, esmagar, destruir o concorrente. 

Assim, conforme a concorrência capitalista, não planejada, não refletida, obriga aos proprietários a modernizar seu maquinário produtivo, a tendência é que, com o passar do tempo, precise-se de cada vez menos gente trabalhando na operação das máquinas. Portanto, se há menos trabalhadores empregados na fábrica, o capitalista tem menos gente para roubar as horas de trabalho – e, logo, tem menos chance de extrair a mais-valia e obter lucro. 

Vejamos isso de um modo mais simples, com um exemplo prático: se um médio empresário antes empregava 20 pessoas e produzia 1000 celulares, agora com novas máquinas ele só precisa empregar 10 pessoas, e consegue produzir 5000 aparelhos. Quem olha pensa: que bom para ele! 

Porém, observemos a situação global deste fenômeno. Em primeiro lugar, este capitalista não está sozinho nesse movimento de modernização, mas seu concorrente faz o mesmo; e talvez seu concorrente tenha um pouco mais de dinheiro que ele para investir em máquinas ainda mais modernas. Isto significa que sob a pressão da diminuição global da taxa de lucros, muitos destes espertos vão falir, para uns poucos crescerem, monopolizando o setor. 

Mas por que diminui a taxa de lucros? Porque se antes este empresário e seus vários concorrentes no mundo tinham um número xis de empregados de quem roubavam algumas horas de trabalho diárias (não pagas), agora este número foi reduzido pelo advento das novas máquinas, e, portanto, a tendência geral é a de que consigam extrair menos lucro, pois o lucro vem do trabalho extra que não é pago aos operários (os quais agora são poucos). 

Resultado disso: no âmbito geral, o lucro tende a cair, e a concorrência a aumentar ainda mais. Embora alguns empresários se saiam bem, a grande maioria tende a quebrar – e aí está o motivo pelo que surgem cada vez mais imensos monopólios dominando o planeta: cerca de mil famílias-máfias controlam o mundo hoje, segundo cálculos das próprias instituições do capital. 

E isso fica mais óbvio de se perceber no dia a dia. Suponhamos que hoje haja somente a metade do que havia, há uma década, de trabalhadores empregados na produção de celulares, de operários sendo direta e efetivamente explorados. Por outro lado, há também somente essa mesma metade com algum dinheirinho no bolso para ir até a loja do patrão e comprar um destes novos telefones, pois a outra metade, desempregada, não vai comprar nada, quando muito arroz – são as massas de excluídos. 

Assim, se antes você produzia 1000 celulares e vendia todos, agora você produz 5000, só que não terá mais para quem vender… 

A consequência disso é a agudização e o aumento da frequência das crises econômicas, como a de 2008, a mais violenta desde 1929. Esta de 2008, aliás, que não acaba de expor seus efeitos, está se mostrando tão deletéria como a Grande Quebra do entre-Guerras. E as duas sintomaticamente começaram bem no coração do sistema: os Estados Unidos, a Europa Ocidental, o que denota sua gravidade. 

Desde o fim do século XX, pesquisadores têm verificado que este movimento insustentável de “crescimento econômico” do capitalismo está chegando no seu limite. Economistas têm constatado empiricamente, mediante cálculos econométricos, que as taxas de lucro, se ainda não começaram a diminuir globalmente, estão em processo de estagnação, especialmente nos EUA. Quem quiser se aprofundar nesse tema, que acho crucial, sugiro a leitura especialmente do genial István Mészáros, mas também de Eleutério Prado, Robert Kurz, Moishe Postone, dentre outros importantes marxistas. 

Tais crises econômicas resultam em crises sociais mais e mais violentas, como as crises de fome, e também em guerras – as quais na maior parte das vezes têm sido disputas por novos territórios a serem explorados, de modo a adiar os efeitos da crise estrutural do capitalismo. 

Só que a crise estrutural é uma crise da própria lógica do sistema, e embora possa ser adiada, não há como resolvê-la dentro da lógica capitalista. Por exemplo, os EUA fazem guerras, destroem países, e com isso aquecem em curto e médio prazo sua economia, vendendo suas armas e movimentando sua indústria da construção civil – pois são suas empreiteiras que depois da guerra vão lá reconstruir o país destruído. Mas logo o ciclo do “progresso” desgovernado se acirra e vêm a nova etapa da crise. 

O “crescimento econômico” eterno é uma ideia restrita e nociva de “progresso”, algo obviamente insustentável em um planeta de recursos energéticos limitados e que hoje já está bem pequeno para o nosso coeficiente de desperdícios. 

O Cerrado brasileiro já foi quase todo destruído pelo capital: o agronegócio. Agora se avança sobre a Amazônia, sobre os territórios ainda autóctones da África, da Ásia. E a natureza cedo ou tarde responde.

[Continua…]

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