Arquivos Luta de classes - PCB/MG https://www.poderpopularmg.org/tag/luta-de-classes/ Poder Popular Minas Gerais Mon, 06 Sep 2021 15:08:27 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 NOTAS E REFLEXÕES SOBRE A QUESTÃO DA VIOLÊNCIA REVOLUCIONÁRIA https://www.poderpopularmg.org/notas-e-reflexoes-sobre-a-questao-da-violencia-revolucionaria/ https://www.poderpopularmg.org/notas-e-reflexoes-sobre-a-questao-da-violencia-revolucionaria/#respond Mon, 08 Jun 2020 17:32:51 +0000 https://www.poderpopularmg.org/?p=74644 WARLEY NUNES

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Por Warley Nunes
A sociedade burguesa nasceu jorrando sangue e lama de seus poros (Marx).
Dizem violento o rio que quando transborda tudo inunda, mas não dizem que é violenta as margens que o oprimem (Bertold Brecht).

Com a revolta popular deflagrada na cidade de Minneápolis (EUA) após o assassinato cruel pela polícia do americano George Floyd, o tema da violência em protestos voltou a ganhar destaque nos noticiários. Os analistas dos principais veículos da mídia hegemônica se esforçam para tentar criminalizar as ações dos manifestantes. O presidente dos EUA Donald Trump acaba de editar uma medida que considera a reação ANTIFA como grupo terroristas, já as hordas fascistas da Ku klux klan e os cidadãos de bem seguem livres marchando com seus capuzes brancos e suas tochas ameaçando a vida de todos aqueles por eles considerados inimigos. Eis a essência da democracia burguesas, que alguns mesmo no campo do marxismo definiram como um valor universal. Nesse sentido, refletir sobre o papel da violência como uma forma legitima de autodefesa e de reação dos explorados e oprimidos contra a violência do estado e das milícias fascistas se faz necessário, pois, ao que tudo indica entraremos numa quadra histórica em que se intensifica ainda mais o acirramento das lutas de classes. 

Desde Maquiavel temos ciência de que a política se funda no uso da força e que o poder das armas é decisivo na resolução dos conflitos sociais, ao contrário do que pensam os ideólogos liberais, o ordenamento social não se estrutura em um mítico pacto social, ou no Habermasiano “agir comunicativo baseado no entendimento racional”. A ordem burguesa e suas relações de produção e propriedade se sustentam pela violência sistemática dos aparatos repressores do Estado sobre os trabalhadores, pelo despotismo nos locais de trabalho e pelo consentimento conquistado a partir da disseminação da ideologia dominante por um conjunto de aparelhos privados de hegemonia que cooptam os setores subalternos para o bloco burguês.

Todavia, não são só os apologetas da ordem que condenam as ações radicais realizadas pelo movimento dos trabalhadores, quem não se lembra nas jornadas de junho de 2013, dos pacifistas, que entoavam a reacionária palavra de ordem do “sem violência”, enquanto os manifestantes eram massacrados pela polícia. Desse modo, há que se considerar que sempre que explosões sociais radicais emergem a esquerda reformista tenta quebrar o radicalismo das ações adestrando a luta aos limites da ordem. O estereótipo da manifestação pacifica e ordeira. O centrismo de hoje vê nas ações radicais da esquerda um preludio do golpe de Estado. Nessa estranha lógica, a passividade da esquerda gera por consequência a passividade da extrema-direita: ledo engano. Marx nos disse que na conjuntura que sucedeu a derrota da revolução de 1848 na França, a palavra golpe não saia dos noticiários, e dos pronunciamentos das forças sociais em presença, mas quando o golpe bonapartista aconteceu ninguém percebeu. 

Para Marx a pequena-burguesia tenta quebrar o radicalismo da luta proletária amoldando esta aos limites das regras democráticas. Vejamos no que consiste a especificidade da política social-democrata: reivindicavam-se instituições republicanas democráticas, não como meio de suprimir dois extremos, o capital e o trabalho assalariado, mas como meio de atenuar a sua contradição e transformá-la em harmonia. Quaisquer que sejam as medidas propostas para alcançar esse propósito, por mais que ele seja ornado com concepções mais ou menos revolucionárias, o teor permanece o mesmo. Esse teor é a modificação da sociedade pela via democrática, desde que seja uma modificação dentro dos limites da pequena-burguesia [1]. 

O objetivo ultimo da social-democracia é transformar a sociedade burguesa em algo suportável, atenuar os conflitos de classe em vez de se pôr a tentar resolvê-los. Portanto, qualquer ação que extrapole os limites das lutas democráticas é por eles rechaçada como extremismo. 

Em contextos de convulsões socais que podem evoluir para uma situação revolucionária (crise das cúpulas, aumento da miséria das massas, os de cima não conseguem mais se manter no poder e os debaixo não conseguem mais viver como antes) onde intensas mobilizações dos de baixo fazem a velha ordem sacudir. Nós, os comunistas, devemos compreender historicamente que as táticas violentas de luta são instrumentos legítimos e necessários de ação das massas, resultado de uma sociedade atravessada pela luta de classes. Marx na famosa Mensagem ao comitê central da liga dos comunistas, apontava: Bem longe de coibir os assim chamados excessos, os exemplos da vingança popular contra indivíduos ou prédios públicos odiados que suscitam apenas lembranças odiosas, deve-se não só tolerar esses exemplos, mas também assumir pessoalmente a liderança da ação” [2]. Vemos aqui que Marx orienta as vanguardas dos trabalhadores assumirem a liderança destas ações ditas extremas. 

Sob tal ótica, Marx nos disse que a violência revolucionária é um meio de encurtar o nascimento da nova sociedade, “A carnificina inútil desde as jornadas de junho e outubro, a enfadonha festa de sacrifício desde fevereiro e março, o canibalismo da própria contra-revolução convencerão o povo de que só há um meio para encurtar, simplificar, concentrar as terríveis dores da agonia da velha sociedade e as sangrentas dores do nascimento da nova sociedade, só um meio — o terrorismo revolucionário” [3]. Portanto, como nos faz parecer a interpretação de Marx: a violência é a parteira que conduz ao nascimento do novo, não constituindo um fim em si mesmo, ou seja, a violência revolucionária é um momento onde o proletariado concentra suas ações visando defender-se da contra-revolução na exata medida que faz o processo avançar. 

Contudo, Marx não é um apologista da violência pela violência como alguns grupos sectários de esquerda pensam, sabemos que as armas da crítica não substituem a crítica feita com as armas, todavia essa não é a única via utilizada em uma revolução, pois, uma revolução, para ter a chance de derrotar a contra-revolução, tem de combinar ações de massas, acumulo de lutas institucionais, e, essas tem de se conformar em uma dualidade de poderes, isto é, em um poder autônomo dos debaixo que mediante a insurreição popular derrube o poder burguês. Não se conhece na história uma revolução que venceu seus inimigos de classe utilizando- se exclusivamente de meios pacíficos. Como descreve Engels: Uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que se possa imaginar; é o ato pelo qual uma parte da população impõe a sua vontade à outra por meio das espingardas, das baionetas e dos canhões, meios autoritários como poucos; e o partido vitorioso, se não quer ser combatido em vão, deve manter o seu poder pelo medo que as suas armas inspiram aos reacionários [4]. Necessariamente, a situação levará as classes em luta ao uso da força, pois, a guerra civil é a continuidade das lutas de classe por outros meios. 

O que aprendemos com as recentes revoltas populares é que essas começam de forma espontânea, são imprevisíveis, mas, de repente irrompem no palco da história abalando o edifício social. Marx se referiu as revoluções como uma toupeira que fica no subsolo escavando quando menos se imagina a sociedade desaba. As insurreições são fruto do acumulo de opressões a qual as massas estão submetidas e o segredo de toda mudança substancial no jogo de forças se dá quando a vanguarda revolucionária em presença combina ação espontânea das massas com direção consciente.

Uma situação revolucionária pressupõe a relação reciproca entre condições objetivas e subjetivas, como afirma Lenin. As objetivas são dadas independentes da vontade das forças em presença e são condicionadas pela decomposição da velha ordem, já as subjetivas dependem da organização da vanguarda, da preparação dos planos táticos e sua vinculação com o objetivo estratégico. A despeito do culto contemporâneo do espontaneísmo e das ações de cunho autonomistas, afirmamos que sem direção consciente e revolucionária, o movimento não chega até últimas consequências e corre o risco de se perder na tática-processo, não indo além das reivindicações imediatas das massas [5].

REFERÊNCIAS

[1] MARX, Karl. O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte. Boitempo, 2011.

[2] MARX e ENGELS. Revolução e contra-revolução na Alemanha. Boitempo, 2010.

[3] MARX, Karl. Vitória da Contra-Revolução em Viena. São Paulo: PUC SP Revista Margem, 2014.

[4] ENGELS, Friedrich. Sobre a autoridade. 2014. Disponível em: <http://www.hist-socialismo.com/docs/Sobre_a_autoridade_F_%20Engels_1873.pdf>. Acesso, jun. 2020.

[5] Sobre o culto fetichista do espontaneísmo e do autonomismo destinaremos um próximo texto. Pois, foge aos objetivos aqui abordados.

Revisão feita por Yan Victor.

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Tirem a gente desta!! Considerações sobre a manipulação do anti-comunismo no Brasil https://www.poderpopularmg.org/tirem-a-gente-desta-consideracoes-sobre-a-manipulacao-do-anti-comunismo-no-brasil/ https://www.poderpopularmg.org/tirem-a-gente-desta-consideracoes-sobre-a-manipulacao-do-anti-comunismo-no-brasil/#respond Sun, 03 May 2020 16:07:35 +0000 https://www.poderpopularmg.org/?p=74436 DIVA MOREIRA

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Neste Primeiro de Maio de 2020, quero homenagear a classe operária e a camponesa abordando uma das mais insidiosas mistificações da história: o anti-comunismo! O Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, foi lançado em fevereiro de 1848. O Manifesto denunciava a super exploração dos trabalhadores pela burguesia e a necessidade de lutar para que essa classe fosse derrubada e os trabalhadores, também chamados de proletariado, assumissem o poder e construíssem uma nova sociedade sem classes e sem propriedade privada dos meios de produção.

Poucos anos antes, em 1845, pela primeira vez é publicado o livro de Engels: A Situação da classe trabalhadora em Inglaterra no qual ele denuncia as péssimas condições de trabalho e de vida de homens, mulheres e crianças. O Manifesto aparece no bojo de um intenso processo de lutas sociais e de produção intelectual, sobretudo na Alemanha (país de onde procedem os dois), França e Inglaterra, não por acaso os países nos quais a revolução industrial tinha se iniciado, sobretudo neste último país.

O domínio da burguesia no ocidente significava uma exploração sem limites e a negação de quaisquer direitos dos trabalhadores, sequer considerados sujeitos de direitos: as longas horas de trabalho não permitiam que fossem dormir em casa e ficavam amontoados nas fábricas, não havia repouso semanal, nenhuma proteção para evitar acidentes de trabalho, levando a mutilações e mortes de trabalhadores que às vezes cochilavam de tão longa e extenuante a jornada.

Se a gente conhece hoje direitos trabalhistas como a jornada de 8 horas, o repouso semanal, férias, direito de greve, de se associar em sindicatos para a defesa coletiva da classe, carteira de trabalho, aposentadoria, entre outros direitos, tudo isso contou com a vigorosa participação dos comunistas. Não teve nenhuma igreja, organização filantrópica (com raras exceções), universidade, imprensa, que defendesse os direitos da classe operária e camponesa.

Quais seriam as fontes deste visceral anti-comunismo? São muitas, mas vou abordar aqui uma delas: as religiões hegemônicas no ocidente. Marx afirmou em 1844: “O sofrimento religioso é, a um único e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. É o ópio do povo”. A última frase foi pinçada do contexto e brandida pelos fundamentalistas para combater impiedosamente o pensamento marxista.

O que as igrejas cristãs fizeram quando vieram à tona as informações sobre a brutal exploração da classe operária e camponesa, exatamente no ocidente cristão? Desconheço se as igrejas luterana (predominante na Alemanha) e a anglicana (que é hegemônica na Inglaterra) se moveram em defesa dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras.

No caso da Igreja Católica, ela só vai se manifestar sobre a necessidade de proteção dos trabalhadores em 1891, quando o Papa Leão XIII anuncia a Encíclica Rerum Novarum (Das Coisas Novas), 43 anos após o lançamento do Manifesto Comunista. Não cabe aqui perguntar sobre as motivações que a levaram a fazer isso para não desviar do rumo deste artigo. Mas não é demais mencionar o conteúdo anti-comunista das cartas atribuídas à inspiração de Nossa Senhora cuja aparição em Fátima teria ocorrido no dia 13 de maio de 1917 até 13 de outubro daquele mesmo ano!! Ora, exatamente naquele ano os partidos revolucionários dos trabalhadores e dos camponeses forçaram a abdicação do poder do Czar Nicolau II, em fevereiro, pondo fim a um dos regimes absolutistas mais cruéis da história do ocidente. Poucos meses depois, em 10 dias que abalaram o mundo, é vitoriosa a histórica Revolução de Outubro! Não é demais lembrar que o regime czarista tinha como um de seus pilares a Igreja Ortodoxa Russa!

Abrindo um parêntese podemos dizer que a figura de Grigori Rasputin, o místico da Igreja Ortodoxa Russa que era conselheiro da família do Czar, pode ser colocado em contraste com figuras como Olavo de Carvalho, Edir Macedo, Marco Antônio Feliciano e outros da mesma estirpe. Fazendo uma blague, diria que se Marx estivesse no Brasil escrevendo “Uma contribuição à crítica da filosofia do Direito de Hegel”, diante da força do segmento pentecostal na base deste desgoverno poderia afirmar: As religiões fundamentalistas (pentecostais e segmentos da católica) são o crack do povo!!

Mesmo rapidamente e incentivando quem me lê a continuar as pesquisas, acho que desmistificar o anti-comunismo passa também por um olhar sobre as aspirações da humanidade a uma vida de igualdade, o que remonta há milênios. Historiadores chamam de comunismo primitivo. Mesmo antes de Cristo, Platão em seu livro A República “concebe um modelo ideal de sociedade a partir da supressão da propriedade privada e da família…”

Agora, o mais surpreendente nesse anti-comunismo – apesar de compreensível – é o fato de que estas ideias de igualitarismo estão fundadas na mesma bíblia que eles usam para defender suas posições radicais e opostas a estas Utopias! Nas primeiras comunidades cristãs existiram as condições concretas de sua existência. Assim, nos Atos dos Apóstolos, capítulo 4, versículos 32 a 37, podemos ler o seguinte: “Da multidão dos que criam, era um só o coração e uma só a alma, e ninguém dizia que coisa alguma das que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns. Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça. Pois não havia entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que vendiam e o depositavam aos pés dos apóstolos. E se repartia a qualquer um que tivesse necessidade. Então José, cognominado pelos apóstolos Barnabé (que quer dizer, filho de consolação), levita, natural de Chipre, possuindo um campo, vendeu-o, trouxe o preço e o depositou aos pés dos apóstolos.”

Ao longo da Idade Média, movimentos camponeses também nutriram este sonho de igualdade e justiça, muitas vezes liderados por religiosos católicos dissidentes que buscavam reconstruir a utopia que inspirou os primeiros cristãos. Esses movimentos sociais foram perseguidos como heresias e impiedosamente massacrados. Vejamos alguns exemplos: “Entre os séculos 12 e 15 apareceram algumas ideais comunistas baseadas em pressupostos religiosos do cristianismo primitivo. Os cátaros (do grego kataroi, que significa “puro”) e os valdenses (seguidores de Pierre Valdo, um rico comerciante francês que abandonou todos os seus bens) se constituíram em dissidências da Igreja Católica. Em suas pregações, os adeptos desses grupos repudiavam a propriedade privada, exaltavam a pobreza e a necessidade de uma vida comunitária onde todos deveriam trabalhar e conviver igualitariamente…”

Esta digressão buscou mostrar que Marx defendeu no Manifesto Comunista aspirações milenares da humanidade e que continuam a existir até nossos tempos, daí a vitalidade do pensamento marxista.

Volto à questão da manipulação da consciência e da opinião pública contra os comunistas, que adquire colossais dimensões nesta era das tecnologias de informação e das Fake News que propagam o medo e o ódio contra os pobres, os negros e os povos indígenas, as mulheres e a população LGBT, que banalizam a mentira e enaltecem o engodo para distorcer a história.

Quero mostrar a importância, o papel, a imprescindível presença dos comunistas na história do Brasil. Em todas as áreas estivemos nós! Não há nenhuma luta na história do povo deste país que não tenha contado com a participação dos comunistas. Neste dia Primeiro de Maio de 2020, faço a minha homenagem abrindo um pouco esta pequena trilha de uma história negada e hoje cheia de entulho fascista, para que a leitura deste texto possa fazer o mínimo de justiça aos homens e às mulheres cujos nomes passarei a declarar com todo o respeito e orgulho neste momento:

Entre os líderes operários e camponeses, de uma lista muito grande destaco alguns nomes de Minas Gerais e de fora do estado, como Francisco Soares e José Francisco Neres (de Sabará), Anélio Marques, de Nova Lima, Roberto Morena, Armando Ziller, do Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte. Temos também, Astrojildo Pereira, Jacob Gorender, Otávio Brandão, Minervino de Oliveira (militante negro que foi candidato à presidência da república). Líderes camponeses, temos Gregório Bezerra e Francisco Julião, no Nordeste, José Porfírio, de Goiás, que foi preso em 1972. Seu nome consta da relação dos 300 desaparecidos durante a ditadura militar. Estes líderes, entre tantos outros, participaram da luta pela sempre adiada reforma agrária no Brasil.

Entre os militares, os líderes comunistas de maior destaque foram Luís Carlos Prestes, Dinarco Reis e Carlos Lamarca. Tendo liderado a Coluna Prestes, ajudou a expor a fome e a dura situação dos camponeses e dos sertanejos do interiorzão de nosso país.

Os comunistas atuaram para a implementação de políticas sociais que beneficiassem o povo brasileiro. Na decisiva área da saúde, e particularmente na humanização dos manicômios, dos asilos para doentes mentais, e depois chamados de hospitais psiquiátricos, onde vegetavam sobretudo pacientes negros, a psiquiatra Nise da Silveira é o ícone maior da luta por uma nova visão da loucura e por tratamento digno dos internos. Ela esteve presa durante a ditadura do estado novo.

Posteriormente, participaram da luta pela reforma sanitária no Brasil, que levou à criação do SUS. Os sanitaristas Sérgio Arouca, Jayme Landmann, Davi Capistrano Filho, Hélio Bacha e Pedro Dimitrov foram personalidades chave na história da saúde pública no Brasil. Davi, que fora secretário de saúde no município de Santos, chegou a ser prefeito da cidade por duas vezes. Na área da educação, Paschoal Leme foi defensor da educação pública e popular.

Na área da cultura a lista de personalidades é robusta. Podemos citar:

Pagu (Patricia Galvão) escritora e militante feminista, que era uma grande agitadora em São Paulo; foi perseguida e presa política por isto. Era amiga de Tarsila do Amaral e de Oswald de Andrade, e acabou casando-se com ele. Pagu e Oswald entraram no PCB nos anos 30; ela publicou um romance muito importante na época, chamado Parque Industrial.

Entre escritores, tem um mundo de gente importante, de norte a sul do país, como Jorge Amado cujos livros escancaram a tragédia social de nosso país. Também foi deputado constituinte em 1946 e inseriu no texto daquela Constituição o preceito da liberdade religiosa, consciente que era da violência e dos abusos sofridos pelas religiões de matriz africana, em qualquer lugar do país.

Outros proeminentes escritores foram Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, o editor Ênio Silveira (da Civilização Brasileira), Caio Prado Jr., que além de escritor foi também deputado constituinte em 1946. O escritor, poeta e militante negro Solano Trindade, que fomentou enorme trabalho artístico em Embu das Artes. Trago à lembrança outro escritor, Antônio Callado, o filósofo Carlos Nelson Coutinho, o físico e crítico de arte Mário Shenberg, e Ziraldo que é também cartunista.

Nas artes cênicas, temos o teatrólogo Oduvaldo Vianna filho (o Vianinha, fundamental no Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes), os teatrólogos Gianfrancesco Guarnieri, Procópio Ferreira, Dias Gomes e sua mulher, Janet Clair. No Cinema Novo, destaco Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirszman e o cineasta e compositor Sérgio Ricardo.

Entre os artistas plásticos, a lista é bem generosa: temos o pintor marinheiro José Pancetti, Fayga Ostrower, pintora e gravadora premiada que dava cursos sofisticados sobre arte moderna para turmas de operários. Cândido Portinari, Djanira, que se dedicou a pintar a cultura popular, a gravadora Maria Bonomi, Abelardo da Hora, que era também gravador em Pernambuco, e fazia gravuras sobre a vida nos mangues de Recife. Temos também Lívio Abramo, Sergio Ferro, o escultor Bruno Giorgi, e o pintor Quirino Campofiorito.

Dos pintores do Grupo Santa Helena, o mais conhecido é Alfredo Volpi, mas nem todos foram militantes. Eram humildes trabalhadores que pintavam a vida popular e a cidade industrial. Foram importantíssimos nos anos 30-40 em São Paulo, no escopo do Modernismo, que era dominado por gente da elite burguesa paulista. Além de Volpi, tem Francisco Rebolo, Aldo Bonadei, Alfredo Pizzoti, Clóvis Graciano. Gente simples do povo cuja profissão era pintor de paredes, açougueiro, operário, entre outras do gênero.

Entre os arquitetos, dois dos maiores são Oscar Niemayer e João Batista Villanova Artigas, criador da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e de enorme importância no Brasil e fora do país. Trago à memória também Antônio Bezerra Baltar, do Recife, e Frank Svenson que deu aula na UNB. Demétrio Ribeiro e Enilda Ribeiro um casal de arquitetos comunistas, do Rio Grande do Sul.

No campo da música e, particularmente, do samba, os comunistas honraram o partido alto! O Partido Comunista teve enorme importância na organização das Escolas de Samba, com Haroldo Costa e a pesquisadora da cultura popular Eneida (que foi companheira de prisão de Nise da Silveira e de Graciliano na Ilha Grande). No Rio de Janeiro, muitos compositores e sambistas foram militantes ou próximos do PCB, como Martinho da Vila, Paulo Sérgio Pinheiro e Clara Nunes, Beth Carvalho, e especialmente Dona Ivone Lara. Jorge Mautner também foi cantor e compositor comunista, bem como o maestro Francisco Mignone.

É curioso saber que o PCB, além de ter estado presente nas escolas de samba percebidas como um canal de aproximação com as camadas populares, “em novembro de 1946, no campo de São Cristóvão, o PCB organizou um desfile em homenagem a Luiz Carlos Prestes, do qual participaram 22 escolas. A maioria dos enredos exaltava o Cavaleiro da Esperança.”

No jornalismo, tivemos Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar, Pedro Mota Lima, Ancelmo Gois, José Carlos Alexandre e Kerison Lopes, os dois últimos de Belo Horizonte. Até o grande treinador de futebol e comentarista esportivo, João Saldanha, foi do Partido Comunista!

Como ativista negra que há décadas adotou o combate ao racismo como sua bandeira maior, sem perder de vista a perspectiva marxista e revolucionária, deixei para o final a citação de dois nomes que são as estrelas maiores da história dos comunistas no Brasil: Carlos Marighella (assassinado pela ditadura militar em 1969) e Osvaldo Orlando da Costa (o Osvaldão da Guerrilha do Araguaia). Também assassinado em 1973; ambos negros.

Para finalizar, devo dizer que alguns destes nomes mencionados podem ser encontrados também em lista de ex-comunistas. Um exemplo notório é Osmar Terra, um dos mais ferrenhos aliados do desgoverno Bolsonaro. Muitos alegam que a utopia comunista tinha sentido em seus tempos de juventude, outros ficaram desencantados com as experiências do socialismo real e com a queda do muro de Berlim. Também a força da ideologia do individualismo e a supremacia do mercado acabaram convencendo muitos de que não haveria outra saída para a humanidade, entre várias justificativas.

O fundamental é não perder de vista que a matriz da história é a luta de classes, o que significa ser uma marcha cheia de contradições, de êxitos e derrotas, avanços e recuos. Que o capitalismo nunca nos deu trégua e que tivemos poucos anos de vida legal em um país de tradição autoritária como o Brasil. Diante dessa realidade, prossigo marxista e comunista, com o coração cheio de esperança em um futuro de igualdade e de justiça. E com as mãos na massa, claro, sem o que não destruiremos a exploração de classe e a opressão de raça e gênero dos quais se nutre o capitalismo, sobretudo nesta fase perversa do neoliberalismo e da financeirização do capital.

Oxalá aprendamos as boas lições que a pandemia mundial do coronavirus pode nos ensinar: o sistema de mercado destrói os seres humanos e a nossa Biosfera. Não há solução para a humanidade nem para o Planeta via capitalismo. Sejamos ousadas e ousados para poder construir uma Sociedade Socialista, ou uma Terra sem Males, como dizem os povos indígenas!

Diva Moreira – jornalista e cientista política
Sabará, 2 de maio de 2020 (Era para ter postado ontem, mas não dei conta. Resolvi manter o título).

Para finalizar mesmo, deixo pra vocês este belo poema de Ferreira Gullar
sobre o Partido Comunista, escrito em 1982:

Eles eram poucos.
E nem puderam cantar muito alto a Internacional. Naquela casa de Niterói em 1922. Mas cantaram e fundaram o partido.
Eles eram apenas nove, o jornalista Astrogildo, o contador Cordeiro, o gráfico Pimenta, o sapateiro José Elias, o vassoureiro Luís Peres, os alfaiates Cendon e Barbosa, o ferroviário Hermogênio.
E ainda o barbeiro Nequete, que citava Lênin a três por dois. Em todo o país eles eram mais de setenta. Sabiam pouco de marxismo, mas tinham sede de justiça e estavam dispostos a lutar por ela.
Faz sessenta anos que isso aconteceu, o PCB não se tornou o maior partido do ocidente, nem mesmo do Brasil. Mas quem contar a história de nosso povo e seus heróis tem que falar dele. Ou estará mentindo.

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De que lado você está? https://www.poderpopularmg.org/de-que-lado-voce-esta/ https://www.poderpopularmg.org/de-que-lado-voce-esta/#respond Fri, 01 May 2020 16:06:41 +0000 https://www.poderpopularmg.org/?p=74424 LEONARDO SILVA ANDRADA e PAULA CAMPOS PIMENTA

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Durante a Grande Depressão que caracterizou o capitalismo do entreguerras, a classe operária foi duramente atacada para que seus esforços cobrissem os prejuízos do capital. Nos diferentes ramos da produção, cada categoria era submetida a um processo que era universal em seu significado: a redução dos salários, a precarização de suas condições de vida e trabalho, a eliminação de garantias mínimas. Igualmente generalizada era a estratégia da burguesia para garantir seus interesses e evitar que a classe trabalhadora percebesse a condição em que se encontrava, identificando um caminho para transforma-la. Tratava-se de impedir a organização e consolidação da ferramenta de luta dos trabalhadores, a sua união em sindicatos. Entre tantos casos, um acabou se tornando histórico, e reter a atenção sobre ele pode ajudar a dar contornos mais definidos ao que chamamos de luta de classes.

Em 1931, como estratégia para garantir seus lucros, a associação de empresas de mineração de Harlan County, nos EUA,  determinou um corte de 10% nos salários dos mineiros. O sindicato nacional da categoria tentou organizar os trabalhadores da área, obtendo como resposta patronal a demissão dos sindicalizados e despejo, com suas famílias, das moradias que eram propriedade das empresas. A categoria não se intimidou, e os trabalhadores ainda empregados iniciaram uma greve de solidariedade, com a adesão de mais de 5000 companheiros na luta. O que estava em questão, afinal, era o direito de se organizar e lutar por melhores salários e condições de trabalho. Os que se decidiram por furar a greve contavam com a proteção da polícia, sob o comando de um xerife que não tinha pudores de declarar abertamente que estava ali para garantir os interesses dos patrões e perseguir os comunistas. 

Sem a proteção de qualquer garantia trabalhista, os grevistas enfrentavam a fome com organização e solidariedade. O sindicato comunista estruturou refeitórios nos bairros operários, que também eram alvo de perseguição. O recrudescimento da repressão e a decisão por resistir levou ao confronto aberto, com emboscadas, tiroteios, explosões de bombas e mortes ao longo de quase toda a década, entrando para a história como A Guerra de Harlan County. Um episódio marcante na história das lutas da classe trabalhadora  abordado em filmes, discutido em livros, e imortalizado em uma música que conta com dezenas de versões. Seu título-pergunta é um chamado ao posicionamento nesse embate que move a história: “De que Lado Você Está?”. A canção intimação foi composta por Florence Reece, casada com um dos sindicalistas caçados pela polícia, e sua declaração em um documentário sobre os eventos é testemunho eloquente de como se expressa a luta de classes em sua forma repressiva na vida cotidiana dos trabalhadores:

“Xerife J.H. Blair e seus homens entraram na nossa casa procurando Sam – esse era meu marido – ele era um dos líderes do sindicato. Eu estava sozinha em casa com nossos sete filhos. Eles reviraram a casa inteira e depois permaneceram de vigia do lado de fora, esperando para atirar em Sam quando ele voltasse. Mas ele não voltou aquela noite. Depois disso eu arranquei uma folha do calendário na parede e escrevi a letra de “Which Side Are You On?” (De Que Lado Você Esta?) com a música de um velho hino batista, “Lay The Lily Low”. Minhas músicas sempre vão para os desvalidos – os trabalhadores. Eu sou uma deles, e eu senti que deveria estar com eles. Não existe essa coisa de neutralidade. Você tem que estar de um lado ou de outro. Alguns dizem “eu não tenho lado – eu sou neutro”. Isso não existe. No seu íntimo, você está em um lado ou outro. Em Harlan County não havia neutros. Se você não era um capanga, você era sindicalista. Você tinha que ser.” 

A composição de Florence Reece, surgida em meio à luta dos mineiros, se tornou um clássico em diferentes versões. Com emoção e harmonia, canta a união entre patrões e poder público para o controle da classe operária e a importância de união e organização para os trabalhadores defenderem seus interesses. As referências da letra são emblemáticas, com cenas que podem ser reconhecidas por todos os que de alguma forma já tomaram parte na luta. Eventos que, de tão repetidos, parecem ensaiados e encenados, mas ficam mais evidentes quando detalhados e nomeados.

É imperativo para a classe trabalhadora se organizar para se contrapor ao poder do capital. A organização forma entidades que são fontes de aprendizado, socialização e formação. É no sindicato e no partido que os interesses de classe podem ser identificados, formulados, definidos em um programa de ação. São esses os espaços em que os iguais na luta podem se identificar, e nessas situações que pode emergir o que chamamos de consciência de classe. Permite a percepção de que a tragédia diária não é solitária, não é sua culpa ou falha. Existe algo de comum que é partilhado, emerge a possibilidade de entender que se o problema é coletivo, a solução também deve ser. Na discussão coletiva desses problemas, brotam as possibilidades de como transformar a semelhança em unidade. Surge assim um programa, uma estratégia e um órgão que coordena a ação de todos. Está no Manifesto de 1848 a indicação do papel de formação ideológica da classe, pois o partido põe em discussão a subalternidade e a passividade a que são submetidos os trabalhadores. Partido e sindicatos, organizando-se de forma autônoma, representam o surgimento ameaçador de classes até então ausentes na disputa política. Cumprem o imprescindível papel de elevar a massa, de seu estágio amorfo e infantilizado, à vida política consciente. São as classes dominadas que dependem dessas entidades, pois precisam do esforço organizado prolongado para elaborar uma cultura e uma visão política autônomas. Por isso, também, o recorrente uso da lei e a ordem para impedir que essa organização se concretize. 

A possibilidade de emergência desses instrumentos de luta coletiva sempre precisou ser obstruída pela classe dominante, para evitar a ação. Historicamente foram mobilizadas as leis e instituições do Estado burguês, utilizando instrumentos repressivos e transfigurando ideologicamente a repressão como garantia da ordem. Desde que se tornou impossível eliminar completamente a participação politica dos trabalhadores, com os avanços da luta organizada, trata-se de garantir pelo menos sua domesticação e controle. A estratégia passa a ser evitar que a classe trabalhadora se reconheça como tal, e  partindo desse reconhecimento, articule seus interesses politicamente. Um objetivo que não está ao alcance, quando existem as organizações onde o trabalhador pode identificar seus interesses de classe e intervir politicamente de forma autônoma. A incorporação política controlada se faz acompanhada de um ataque repressivo e ideológico às suas organizações, para garantir que se mantenha permanentemente em um estágio de massa amorfa e infantilizada. Para que o controle seja garantido, as classes dominadas devem ser mantidas à distância das grandes questões e princípios, incapacitadas de alcançar a abstração de projetos políticos. À emancipação política se associa a neutralização dos sindicatos, pois a dominação só se completa se ao monopólio das armas, se associa o monopólio da produção espiritual. Destituídas de suas fontes de formação, a classe trabalhadora fica sujeita à orientação fornecida por aparelhos ideológicos controlados pelo capital, com destaque para a mídia.

O embate em Harlan County nos anos 1930 foi também a trajetória dos trabalhadores de Chicago, em 1886, que deu origem ao 1∞ de maio como Dia do Trabalhador; ou de Betim e Osasco em 1968, em plena ditadura civil-militar no Brasil. O enredo da musica de Florence Reece é a historia da luta de classes, materializada na batalha que ela vivenciou. O caminho que ela aponta é o único disponível para a classe trabalhadora.

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PANDEMIA | Daniel Cristiano convida o professor Túlio Lopes para o debate “A Crise, a pandemia e a luta de classes em Minas Gerais”.

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